Estreia da semana: SILÊNCIO (Silence)

Silêncio-2

Um cineasta com a filmografia de Martin Scorsese pode se permitir realizar um filme como Silêncio. Não se trata de ser bom ou ruim, é uma jornada que, acredito, o velho Marty se comprometeu a percorrer, como os personagens, desde que leu o livro de Shûsaku Endô , 25 anos antes de conseguir levá-lo às telas. Fé e religião, o poder divino e sua interferência na vida humana não são novidades na obra de Scorsese.

No século XVII, dois jesuítas portugueses, Sebastião Rodrigues (Andrew Garfield) e Francisco Garupe (Adam Driver) tomam para si a missão de encontrar seu antigo mentor, Padre Ferreira (Liam Neeson), no distante Japão, um país que não tolera e pune cruelmente os que se confessam cristãos. Ferreira, supostamente, teria renegado a fé na Igreja Católica.

Os dois jovens padres viverão provações inimagináveis, físicas e espirituais. Sua fé será posta à prova e enfrentarão escolhas dolorosas em meio a um povo miserável, dominado pelo medo. A fé ardente que aquela gente miserável demonstra nos preceitos do Cristianismo agarra-se desesperadamente a objetos, ainda que toscos, como crucifixos, como se a fé estivesse mais contida nestes eles do que em sua própria alma, observa um deles numa de suas muitas reflexões.

Um filme sobre perseguição religiosa, menos por convicções espirituais do que pelo temor do que a nova crença poderia provocar nas mentes. Admitir a difusão do cristianismo no país, para os donos do poder, seria uma ameaça ao status quo. O opressor é hábil e usa estratégias que possam dividir a comunidade cristã.

Uma história sobre confrontar suas crenças, que me trouxe à lembrança um texto que trabalhei num curso para tradutores, tempos atrás, cujo título era “A perda de uma crença”. Seja por medo – como soltar a mão da saliência na rocha estando com um precipício aos pés – seja por vaidade e negativa em conceder mérito e razão a outro (vemos isso todo dia nas redes sociais), abandonar ou reavaliar uma crença é um processo extremamente difícil para muitas pessoas.

No caso de nossos personagens, não é exatamente a crença no Cristo que fica ameaçada, mas na sua extensão, no modo como se manifesta o poder divino e  o que a missão de difundir o Catolicismo pode exigir deles. Os padres clamam por uma luz que os oriente em suas decisões. Não há respostas fáceis, claras. Há o silêncio.

O ritmo do filme, ainda que com cenas muito fortes, é lento e a narrativa por vezes se arrasta, tornando-se mesmo enfadonha, repetitiva. A porção final do longa, com embates entre os jesuítas vividos por Neeson e Garfield e o frio inquisidor vivido por Issei Ogata, confere mais dinamismo ao filme, trazendo instigantes diálogos e levantando reflexões sobre religião, cultura e o que é a verdade.

A fotografia é de grande beleza, pintando na tela grande quadros em tons enevoados, de profunda dramaticidade.  O mar violento é um elemento constante, rugindo, abafando o silêncio, golpeando homens em fuga e homens sacrificados.

Os protagonistas perderam vários quilos antes de assumir os papéis. Estes papéis, aliás, originalmente seriam de Daniel Day-Lewis, Gael Garcia-Bernal e Benicio Del Toro (substituídos por Neeson, Garfield e Driver), que desistiram por conta dos sucessivos adiamentos das filmagens. Creio que teríamos atuações igualmente primorosas.

Para nós brasileiros, e não duvido que para os falantes de outras línguas também, há um incômodo que é ouvir o idioma Inglês se passando por Português. Concessões ao mercado, certamente. As falas em japonês são mantidas, bem como as em Latim.

A história de Endo já havia sido levada às telas numa produção japonesa de 1971. A première de Silêncio foi realizada no Vaticano e houve uma exibição em Roma para 400 padres jesuítas.

Afinal, um filme sobre forças que movem os homens desde sempre: crenças, senso de missão a cumprir, desejo de poder, fidelidade, compaixxão, medo e fé. Uma obra com a marca de qualidade do diretor de Taxi Driver (1976), Touro Indomável (1980), Gangues de Nova York (2003), mas que, desta vez, exige do espectador algumas concessões, como uma fruta nutritiva, mas difícil de descascar.

SILÊNCIO (Silence)

EUA/Taiwan/México, 2016, 2h41m

DIREÇÃO: Martin Scorsese

ROTEIRO: Jay Cocks , Martin Scorsese . Baseado no livro de Shûsaku Endô

Aventura/drama/História

Classificação: 16 anos

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