Estreia da semana: CÃES SELVAGENS (Dog eat dog)

cães selvagens cartaz

Misture Tarantino com os Irmãos Coen, acrescente uma pitada de Os Três Patetas, cubra com uma camada de fotografia caprichada e sorva em grandes goles, com algumas pausas para respirar e pensar na vida. Se Cães Selvagens fosse um drink, a receita bem poderia ser assim.

Eu podia também, senhores, estar evocando aqui os Filmes de Sangueira e Mulher Pelada do catarinense Petter Baiestorf, versão trash/Baixo Orçamento ou BO (muito BO) de Tarantino. Mas não vou saturá-los de referências. Aliás, referências são uma constante na boca de Troy (Nicholas Cage), um criminal que costuma filosofar e faz planos de viagens românticas com garotas de programa.

Nicholas Cage é um ator que a gente não sabe ao certo como classificar. É bom? É canastrão? Talvez porque boa parte, senão a maioria, de seus filmes, aqueles que passam exaustivamente na TV, vão de péssimos a sofríveis. Mas, sob o comando de Schrader (que roteirizou Taxi Driver e Touro Indomável, pérolas cinematográficas de Martin Scorsese) e com o texto do roteirista Matthew Wilder, baseado no livro de Edward Bunker, Cage resgata o ator que dorme dentro de si.

Cães-Selvagens-cenaTroy, Diesel (Christopher Matthew Cook) e Mad Dog (Willem Dafoe), são ex-presidiários que, de volta à sociedade dita civilizada, não podem, não conseguem ou não querem seguir o fluxo. Escoram-se na crença de que, entrando uma vez na prisão, o sujeito provavelmente a ela voltará, ou seja, considerar a possibilidade de não cometer mais crimes é uma opção que passa longe.

Se Troy é refinado e tem razoável capital cultural, Diesel é o que chamamos de curto e grosso. Já Mad Dog vive num universo paralelo, caótico e surreal.

Acreditando ou fingindo acreditar no crime perfeito, o trio embarca numa ação aparentemente fácil – sequestrar um bebê – que poderá lhes render a aposentadoria, desfrutando as praias do Havaí. Em seu imaginário, é para lá que vão os criminosos bem sucedidos. Desta vez não há referência ao Brasil como paraíso da bandidagem em fuga, como em tantos filmes. Os três, provavelmente, não têm ideia de onde fica a Terra Brasilis.

Schrader compõe uma narrativa por vezes frenética, de cores e sons que se fundem como numa alucinação – estado frequente de Mad Dog, sempre chapado –, num ambiente de humor negro e cheio de sarcasmo. Em contraste, outras sequências dispensam as cores e a fotografia assume um tom mais elegante, dramático.

Para além da sangueira, Cães Selvagens é também sobre o armamento da sociedade civil, em nome de uma suposta segurança. É sobre o sistema e os desajustados que produz ou ajuda a produzir, especialmente na lógica do “vigiar e punir” (com licença, Foucault). Longe de ter um discurso sociológico ou antropológico, mas que não deixa de ser uma reflexão sobre este mundinho cada vez mais insano habitado pelo homo sapiens, onde, para “salvar” pessoas atingidas por bombas, jogam-se mais bombas. Em nome da justiça e da democracia. A matilha é bem maior do que se supõe.

 CÃES SELVAGENS (Dog eat dog)

EUA, 2016, 93 minutos

Direção: Paul Schrader

Roteiro: Matthew Wilder (baseado no romance de Edward Bunker)

Elenco: Nicolas Cage / Willem Dafoe / Christopher Matthew Cook / Louisa Krause

16 anos: drogas, conteúdo sexual, violência extrema

Lançamento: 06/04/2017

Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=lIvmo99NTww

Distribuição: https://imagemfilmes.com.br/filmes/164643/caes-selvagens

Mais info: http://www.imdb.com/title/tt4054654/

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