Estreia: RODA GIGANTE (Wonder Wheel )

 

WA16_D28_0159.ARW

Ao entrar no cinema e acomodar-se em sua poltrona, o espectador mergulha, pelo olho da câmera, no universo da Roda das Maravilhas, a Wonder Wheel de Woody Allen. Uma ironia, bem ao gosto do diretor. Na verdade, o que vemos é um parque já meio decadente em Coney Island, ainda que a roda gigante não cesse de girar. E ela domina as cenas, ao fundo, sempre em movimento, como as horas, os dias, o tempo enfim.

RODA GIGANTE - GINNY

 

A vida de Ginny (Kate Winslet, arrebatadora) segue como a roda que gira, gira e não sai do lugar. Amargurada com sua existência sem brilho ao lado de Humpty (Jim Belushi), o operador do carrossel, e enlouquecida com as tendências piromaníacas do filho pré-adolescente, a moça procura uma salvação. E encontra, literalmente, no salva-vidas Mickey (Justin Timberlake) que, quando não está resgatando afogados, gosta de ler sobre filosofia.

RODA GIGANTE - CASAL PRAIA

 

É pela voz de Mickey que acompanhamos a história de uma relação já potencialmente explosiva e que se complica ainda mais com a chegada da filha de Humpty, Carolina (Juno Temple). A beldade também cai de amores pelo amante da madrasta. E, como nada é tão ruim que não possa piorar, a jovem tem matadores em seus calcanhares, a serviço de seu marido, um gângster.

Parêntesis: A fala de Carolina quando afirma que “quem casa com um bandido não pode dizer que desconhece o que ele faz” nos tira por um instante dos anos 1950 e nos traz de volta para este quase finado 2017. Se você pensou numa família do alto escalão do governo fluminense que saiu do palácio para a cadeia, é isso mesmo.

Voltemos a Coney Island. Mickey, o salva-vidas, se vê então enredado na roda dessas duas mulheres, um possível salvador de vidas arruinadas. E quem está na roda, ora está em cima, ora embaixo, ora é festa e riso, ora é choro e dor.

WA16_D22_0194.ARW

O velho Allen não abandonou o humor sem-dó-nem-piedade com que recheia seus filmes, mas está mais, digamos, compenetrado. Nesse longa, os conflitos amorosos, familiares e existenciais estão mais aguçados, mais profundos, mais amargos, a la Tennessee Williams. Mas não faltam as referências irreverentes aos psiquiatras, os “médicos de cabeça”, e a judeus e carcamanos.

Ginny tem algo de Cecilia, a sonhadora protagonista de A rosa púrpura do Cairo. Ambas são garçonetes e tocam uma vidinha completamente desprovida de glamour, buscando refúgio na arte. No caso de Ginny, nas lembranças de sua frustrada carreira de atriz. Aliás, Allen, por meio de seus personagens, homenageia o teatro, a literatura, o próprio cinema. Atente para o cartaz do filme numa das cenas: Winchester’ 73, um western clássico de 1950. Detalhes que tornam um filme ainda mais saboroso.

RODA GIGANTE - JIM BELUSHI

Com um elenco afinado (Belushi, em quem não reconheci o companheiro do cão policial K-9, está a altura de Winslet), uma bela fotografia (assinada pelo oscarizado italiano Vittorio Storaro), uma luz que carrega de dramaticidade os rostos, os charmosos figurinos de época, mais a música envolvente de sempre, este filme, caso Allen estivesse se aposentando, seria um belo e digno jeito de encerrar sua carreira.

 RODA GIGANTE (Wonder Wheel)

EUA, 2017, 1h41min

Roteiro e direção: Woody Allen

Elenco: Kate Winslet, Juno Temple, Jim Belushi, Justin Timberlake

Drama, violência, drogas lícitas

Trailer e fotos :

Imagem Filmes:  https://imagemfilmes.com.br/filmes/164706/roda-gigante

IMDb: http://www.imdb.com/title/tt5825380/

Mars Films: http://www.marsfilms.com/film/wonder-wheel/

 

Anúncios

Estreia: O PODER E O IMPOSSÍVEL (6 Below: Miracle on The Mountain)

O-Poder-e-o-Impossível-centro

Tragédias em montanhas, mais ou menos cobertas de neve, têm ocupado as telas dos cinemas ultimamente. Ao dispensável (e até constrangedor, um desperdício de belas locações e talentos) Uma montanha entre nós e ao louvável Gabriel e a Montanha vem se juntar O poder e o impossível, também baseado numa história verídica.

O personagem real, no caso, é Eric LeMarque (Josh Hartnett), atleta olímpico de hóquei no gelo, com um conturbado histórico de uso de drogas pesadas. Tentando repensar a vida, LeMarque viaja para uma estação de esqui para praticar snowboard. Pego por uma tempestade de neve, o atleta se perde na imensidão branca.

Filmes baseados em acidentes e catástrofes e a superação de adversidades extremas sempre perigam debandar para o exagero e o dramalhão rasgado. No caso do longa de Scott Waugh a coisa fica mais complicada, em função das escolhas (preguiçosas?) do diretor. A produção começa apostando num estilo com jeito de reportagem sobre esportes radicais, explorando exaustivamente as manobras perigosas e descidas vertiginosas do snowboarder.

Enquanto tenta sobreviver, Eric revive momentos de seu passado e da difícil relação com o pai, que jogava sobre o filho imensas expectativas e o assombrava com o fantasma do fracasso. A narrativa vai se tornando repetitiva e pouco criativa, ganhando alguma emoção apenas nos 20 ou 30 minutos finais, quando começam as buscas.

O-Poder-e-o-Impossível-ROSTO

Os muitos closes no rosto do ator também nada acrescentam à trama que segue burocrática e carente de densidade. E ainda tem uma trilha sonora que faz lembrar aquelas novelas bíblicas que certa emissora de TV gosta de explorar. Eu chamo de “música de Mar Vermelho se abrindo”. Um exagero!

O filme pode evocar no espectador algumas outras histórias reais levadas à tela, como a do longa Na natureza selvagem (Into the wild, 2007) ou a do brasileiro Gabriel Buchmann, já citada, mas as semelhanças se resumem ao fato de traçarem a jornada de jovens perdidos em suas buscas por sua identidade, por sua razão de viver, por paz e autoconhecimento.

Há, sim, belas tomadas aéreas, belas imagens, seja de dia, com o branco dominando a tela, ou uma linda noite estrelada. E uma sacada interessante: a analogia da bateria do equipamento de localização de LeMarque com o sopro de vida que lhe resta.

Pode ainda gerar alguma reflexão sobre as fronteiras entre ousadia, coragem e inconsequência, ou sobre o respeito às forças da natureza (e a lembrança que me vem à mente é “Cem dias entre céu e mar”, do navegador Amyr Klink). Ou ainda sobre a inevitabilidade do destino.

A mensagem de que as mais tenebrosas adversidades podem ser vencidas (com a ajuda de outros) e uma tragédia pessoal pode ser uma porta para outras conquistas na vida, desde que se esteja disposto a assim encará-la, não chega a redimir o filme de sua pouca inspiração, mas lhe confere algum mérito.

O PODER E O IMPOSSÍVEL (6 Below: Miracle on The Mountain)

EUA, 2017, 1h38min

Direção: Scott Waugh

Roteiro: Madison Turner e Eric LeMarque (autor do livro)

Elenco: Josh Hartnett, Mira Sorvino, Sarah Dumont

Aventura, biografia, drama

Imagem Filmes: https://imagemfilmes.com.br/filmes/164757/o-poder-e-o-impossivel
IMDb: http://www.imdb.com/title/tt5503688/

 

 

Estreia: O ESTADO DAS COISAS (Brad’s status)

O ESTADO DAS COISAS.cama

A costumeira ineficiência em traduzir títulos de filmes se manifesta, mais uma vez. A opção dos nomeadores de plantão para “Brad’s status” é inadequada não só porque não traduz o sentido do título original, centrado no personagem, mas ainda rouba a conexão com as redes sociais que alimentam a obsessão de Brad (status sequer é palavra de origem inglesa, nem deveria ser traduzida).  Para piorar, o título é idêntico ao do longa dirigido por Wim Wenders, em 1982,  ganhador do Leão de Ouro (este sim, traduzido corretamente de The state of the things).

Queixa registrada, vamos falar de Brad (Ben Stiller) e sua capacidade em transformar coisas simples em problemas, o tal hábito de enxergar o copo sempre meio vazio. Tudo a sua volta parece humilhá-lo. Cada postagem dos antigos amigos ou sua aparição em revistas classe A parece gritar na sua cara seu suposto fracasso. São ricos, felizes, belos e famosos.

Morar numa boa casa, realizar um trabalho gratificante e digno (Brad comanda uma ONG), ter uma esposa bonita e companheira e um filho talentoso pode realmente não preencher as expectativas de vida de uma pessoa. Mas, no caso de Brad, a questão não é se sentir impelido a alcançar algo maior, como uma missão na vida. Ele não questiona suas escolhas por estar insatisfeito com elas propriamente, mas por compará-las a um padrão que a sociedade definiu como “sucesso”. Se você está fora dele, meu caro, você é um looser, um zero à esquerda.

Padrões que são reforçados o tempo todo pela mídia, pela publicidade. Disseminados como epidemia pelas redes sociais. Ter status, ser especial, superior, VIP. Ser reconhecido, reverenciado, bajulado. Como se alcança isso, como é, o que é? Uma sociedade que abandonou o “ser” pelo “ter”, e este pelo “parecer”. E Brad sofre por querer copiar a vida do outro, que julga ser um eterno playground em contraste com a sua, um campo de batalha. E o que dói mais: a própria suposta derrota ou o êxito do outro?

O ESTADO DAS COISAS.filho

A jornada de Brad do inferno interior em que mergulhou à busca pela redenção acontece na jornada real que faz com seu filho adolescente, Troy (Austin Abrams), músico promissor, por renomadas universidades norte-americanas. O garoto tem entrevistas agendadas, inclusive em Harvard, e o sucesso do filho pode conferir a Brad a distinção (alô, Pierre Bourdieu!) que ele almeja, pode ser sua chance de esfregar na cara da sociedade que ele também está no topo da pirâmide.

Uma cena, no avião em que viajam pai e filho, quando é fechada a cortina que separa as classes de passageiros, resume com sutileza, mas precisão, o sentimento de Brad em relação à sociedade onde vive.

Este “O Estado das Coisas” não chega a ter cacife para disputar um Leão de Ouro em Veneza, como seu xará, mas tem seus méritos. Roteiro, fotografia, diálogos, trabalham a favor da história que o filme se propõe a contar e Ben Stiller está convincente no papel do atormentado (ainda que geralmente contido) Brad. A narrativa em off do personagem central aproxima o espectador de seus sentimentos, de suas angústias, dúvidas, contradições e, sim, de suas autocríticas: inveja do próprio filho? Tentação de transferir a outros a culpa por seu “fracasso”?

O diálogo interno incessante joga nosso herói para lá e para cá. E ele vai fazendo descobertas, dentro e fora de si. Um percurso que pode levá-lo a questionar a “amizade” entre os antigos companheiros, a refletir sobre valores, sobre a essência das coisas que viveu e possui e sobre o quanto importa a opinião alheia e quais pessoas cuja opinião realmente é importante.

O ESTADO DAS COISAS (Brad´s Status)

EUA, 2017,  102 min.

Direção e roteiro: Mike White

Elenco: Ben Stiller, Austin Abrams, Jenna Fischer

Trailer oficial: https://www.youtube.com/watch?v=Ynhq3y7nEJk

Imagem Filmes:  https://www.imagemfilmes.com.br/filmes/164707/o-estado-das-coisas

IMDb:  http://www.imdb.com/title/tt5884230/ 

Estreia: SOUNDTRACK

O SOM INTERIOR:

Soundtrack-Fotos-Imprensa-SOUND-l-Soundtrack-Fotos-Imprensacópia-de-soundtrack-3817-1024x682

Num mundo dominado por imagens, Soundtrack propõe direcionar o foco para outro sentido, ainda que seu protagonista, Cris, seja um fotógrafo. Encarnado pelo sempre afinado Selton Mello, Cris viaja a “outro planeta”, o Ártico, onde pretende fazer selfies enquanto ouve uma determinada trilha sonora. A ideia do artista é que, ao ver o trabalho exposto e ouvindo as tais músicas por meio de fones de ouvido, o público possa experimentar as sensações que ele teve no momento do clique.

É de se esperar que uma ideia assim incomum provoque reações nem sempre amistosas nos companheiros da base, pesquisadores, homens das ciências (mas nem por isso desprovidos de sensibilidade). O grupo é composto pelo britânico Mark (Ralph Ineson, ótimo), pelo brasileiro Cao (Seu Jorge), o chinês Huang (Thomas Chaanhing) e o dinamarquês Rafnar (Lukas Loughran).

Entre olhares enviesados, choques diretos, atritos e risos, regados a doses de vinho, os cinco homens vão convivendo com suas diferenças e descobertas. Filosofam sobre felicidade e a existência de um deus. Suas motivações e crenças. Sobre ciência e arte.

O clima dos ambientes internos, nos containers onde convivem, é quase sempre sombrio e intimista, em contraste com o branco estourado do lado de fora e a amplidão da paisagem que, na verdade, é apenas sugerida, afinal o filme foi todo rodado em estúdio.

O problema é que esta experiência coletiva, bem como a experiência pessoal do protagonista e sua mudança de perspectiva sobre o propósito de sua arte, é superficial, apenas sugerida ao espectador, que é mantido alijado das sensações que o longa propõe. Até o elemento base do argumento – associar os sentidos de visão e audição – é negado ao público nos momentos-chave.

Se acerta ao ficar longe de sentimentalismos ou do didatismo, o filme peca ao não traduzir de modo mais convincente as nuances dos personagens. Acreditar na inteligência do espectador, ou do leitor, é uma virtude. Mas aqui não é o caso.

A dupla que assina a direção como 300ml é composta por Manitou e Bernardo Rocha. Manitou passou por várias produções da Rede Globo, partindo depois para a produção, redação publicitária e direção. Bernardo Dutra é diretor e ator. A dupla tem no currículo o ótimo curta Tarantino’s Mind, onde Selton Mello e Seu Jorge discutem teses sobre a sangrenta obra de Quentin Tarantino.

Soundtrack é um daqueles filmes que não se encaixam propriamente na definição de “bom” ou “ruim”. É insatisfatório. Uma câmera na mão e uma boa ideia na cabeça, que não encontrou seu melhor caminho – sua trilha – para chegar às telas, aos corações e mentes do público.

 

SOUNDTRACK

Brasil, 2017, 112 min

Direção e roteiro: 300ml

Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=oU_L_tEumxY

Imagem Filmes: https://imagemfilmes.com.br/filmes/164729/soundtrack

NEVE NEGRA: Tá quente, tá frio

neve negra darin

Se a cinematografia hermana fosse a tabela do Brasileirão, Neve Negra  estaria naquela meiuca, perigando cair para a zona de rebaixamento. Um filme que destoa, em qualidade dramatúrgica, da recente produção argentina. Talvez tenhamos ficado mal acostumados.

Claro, não esperamos que toda hora surja nas telas algo do nível de O segredo dos seus olhos (Juan Jose Campanella, 2009) ou Nove Rainhas (Fabián Bielinski, 2000, que teve Hodara como assistente de direção). Mas Neve Negra peca principalmente por sua pretensão. Promete uma sessão de mistério e suspense, mas não consegue segurar esse clima nos 90 minutos do tempo regulamentar.  Pode ser mesmo entediante em vários momentos, apesar de partir de um argumento promissor. Ricardo Darín, sem dúvida, é o grande atrativo do longa.

Acusado de matar o irmão mais novo, décadas atrás, Salvador (Ricardo Darín) exilou-se na Patagônia. A morte do pai leva seu outro irmão, Marcos (Leonardo Sbaraglia) a procurá-lo a fim de tratarem da venda do patrimônio que herdaram. Uma oferta milionária de uma empresa estrangeira interessada nas terras supera qualquer desavença familiar, convenhamos.

Neve-Negra irmãos

Com a desculpa de que precisa atender ao desejo do pai e depositar suas cinzas junto ao local onde o filho foi enterrado, Marcos, esposa grávida a tiracolo (Laia Costa), parte para as terras geladas do sul da Argentina. Salvador, claro, não vê com agrado aquela invasão em seu refúgio.

A ação passa então a se desenrolar em dois tempos distintos. Os flashbacks vão revelando o passado daquela família, onde as relações não eram exatamente afáveis. Em alguns momentos o filme nos remete ao excelente dinamarquês/sueco A Caça (Thomas Vinterberg, 2012), mais pelo cenário gélido e o iminente perigo de uma “bala de rifle de caça perdida”.

Ao final, o filme se redime em parte da pouca criatividade do roteiro e oferece um desfecho interessante, ainda que não surpreendente, com uma personagem secundária assumindo o controle e de certo modo ditando os rumos de uma trágica história.

NEVE NEGRA (Nieve negra)

Argentina/Espanha, 2017, 1h 30min

Crime, drama, mistério

Direção: Martin Hodara

Roteiro: Leonel D’Agostino, Martin Hodara

IMDb: http://www.imdb.com/title/tt5614612/

 

QUEM É PRIMAVERA DAS NEVES: no cinema, a melhor tradução

QUEM É PRIMAVERA DAS NEVES - ela

 

Assisti a essa pequena joia no Festival É tudo Verdade, em maio (post aqui), e é com alegria que a vejo chegar ao circuito.

O documentário de Ana Luiza Azevedo e Jorge Furtado faz um resgate extremamente delicado de uma personagem de nome incomum e vida, se não tão incomum, nada banal. Movido pela curiosidade, Furtado foi atrás da história dessa mulher com nome de pseudônimo.

Descobriu a trajetória de uma mulher, fruto do casamento de um anarquista português com uma sufragista espanhola, que veio para o Brasil aos nove anos, adolescente voltou a Portugal, casou-se com um militar português e, fugindo do regime salazarista, se fixou com o marido em terras brasileiras.

QUEM É PRIMAVERA DAS NEVES - Lima e Furtado

A importância de Primavera das Neves para a literatura publicada em língua portuguesa é pouco ou nada conhecida.  Lemos as obras e nem sempre nos damos conta de que estamos lendo uma tradução, uma interpretação da obra original. Geralmente só atentamos para o nome do/da tradutor/a quando é alguém famoso por aqui.

Num curso de Especialização de Tradutores que fiz décadas atrás, ouvia-se o lema: “a tradução deve ser tão fiel quanto possível, tão livre quanto necessário”. Ou seja, o tradutor é um escritor, não apenas converte palavras, expressões, de um idioma para outro, como quem converte pesos e medidas. É preciso recriar o texto, adaptá-lo, torná-lo inteligível, sem perder a essência original. E assim pode fazer viver a obra numa outra língua, ou arruiná-la. Tradutor-traidor é uma expressão conhecida no meio.

Poliglota, Primavera das Neves foi tradutora de autores consagrados, como Lewis Carroll, Emily Brontë, Vladimir Nabokov, John Le Carré, Julio Verne, Emily Dickinson, e outros mais. Escreveu também delicados e profundos poemas.

Os diretores conduzem com maestria a história dessa mulher singular, sensível e forte, numa narrativa belamente construída, mesclando depoimentos deliciosos de gente que conviveu com Vera, como o ex-marido e as ex-colegas de colégio Eulalie Ligneul (que criatura adorável!) e a artista plástica Anna Bella Geiger.

Textos traduzidos por Primavera das Neves (que também assinava suas traduções como Vera Neves Pedroso) e alguns de seus poemas vão costurando a história, pontuando momentos da vida da própria personagem, numa interpretação impecável de Mariana Lima.

A curiosidade, dizem, matou o gato. Mas também pode levar a descobertas sensacionais.

Trailer: http://globofilmes.globo.com/filme/quem-e-primavera-das-neves/

No Facebook: https://www.facebook.com/quemeprimaveradasneves/

Primavera das Neves na wiki: https://pt.wikipedia.org/wiki/Primavera_das_Neves

Sobre tradução, um interessante artigo acadêmico aqui.

 

QUEM É PRIMAVERA DAS NEVES

Brasil, 2017, 75 min

Direção: Ana Luiza Azevedo e Jorge Furtado

Roteiro: Jorge Furtado, Pedro Furtado

O CIDADÃO ILUSTRE – Ensaio sobre a hipocrisia

O CIDADÃO ILUSTRE - NobelNo futebol, há equipes que dominam cada m2 do gramado. Como uma engrenagem, se armam de modo que passes, lançamentos, se completem, criando uma rede que aprisiona o adversário. Nas telas, há também filmes assim.

Não diria que O Cidadão Ilustre é uma obra maior do cinema argentino, mas, se no todo é um belo exemplar do cinema hermano, em cada detalhe, cada plano, cada sequência, cada fala, é certeiro. Como de costume na filmografia de nossos vizinhos, os personagens são bem construídos, o texto convincente. Sob a batuta de Gastón Duprat e Mariano Cohn (que dirigiram o ótimo O homem ao lado, 2009, também uma ácida versão de embate entre classes sociais), as atuações são na medida.

A jornada do Premio Nobel de Literatura Daniel Mantovani (Oscar Martínez) por Salas, cidade onde nasceu, cujos habitantes inspiram seus livros e na qual não bota os pés há quatro décadas, é uma jornada pela alma humana. Sua amabilidade e sua mesquinharia, onde a hipocrisia leva o troféu.

O CIDADÃO ILUSTRE BOMBEIROS

O CIDADÃO ILUSTRE - povo

Mantovani pega pesado. Todo trabalhado na arrogância, pode ir de simplesmente desagradável a curto e grosso. Mas também pode derreter o gelo que carrega no peito, de vez em quando. E sorrir, e dar autógrafos, e posar ao lado da rainha da beleza local.

A princípio curioso e até entusiasmado a percorrer as ruas de seu passado, Mantovani deixa Barcelona, onde vive com luxo e conforto, e segue para a terra natal. Lá, entre pedidos de ajuda e algumas demonstrações de desinteressado apreço e mesmo doçura, o premiado autor vai sendo envolvido numa trama, numa teia onde sorrisos podem esconder dentes afiados, prontos para morder.

O cidadao-ilustre - namorada

Para além do confronto entre bom e mau gosto, entre alta e baixa cultura, entre metrópole e cidadezinha, estão as práticas tão conhecidas de nós de troca de favores, bajulação, apego a fórmulas as quais sabe lá quem inventou. Apego à ordem estabelecida. Novos olhares, novos pontos de vista, podem ser perigosos em alguns rincões.

Não há moços bonzinhos por quem torcermos nesse filme (ou melhor, talvez por um discreto rapaz, que ganha estatura ao final do longa). Há gente. Gente que nasceu para brilhar e gente que nasceu para apagar as luzes alheias. Gente que tem medo e se cala, e gente que põe as mordaças. E um homem cuja alma atravessa vales de afeto, desprezo, saudade, impaciência, dobrando-se eventualmente a forças contrárias, mas determinado o bastante para se reerguer. E a arte segue seu rumo, guerreando consigo mesma, sem fazer concessões.

Mais um gol para nossos vizinhos.

O CIDADÃO ILUSTRE (El ciudadano ilustre)

Argentina/Espanha, 2016, 1h58m

Direção: Gastón Duprat, Mariano Cohn

Roteiro: Andrés Duprat

Elenco: Oscar Martínez, Dady Brieva, Andrea Frigerio

Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=0raD8Z_mKWU

IMDB: http://www.imdb.com/title/tt4562518/

Estreia da semana: Z – A CIDADE PERDIDA

z-a-cidade-perdida-aldeiaAs sequências iniciais do longa de James Gray são de muita ação, numa feroz caça ao veado, pelas belas paisagens da Irlanda. Apesar de ser um filme (também) de aventura, o desenrolar da história segue com certa morosidade, como o ritmo de um rio que corre sem sobressaltos. O que não significa marasmo ou que vá entediar o espectador. O próprio personagem é contido em seus gestos e reações, ainda que sua história seja ditada por uma paixão.

Z-A-Cidade-Perdida

Percival Fawcett (Charlie Hunnam) é um oficial que não goza de grande prestígio nas altas rodas do império britânico, apesar de suas habilidades. Um major sem medalhas, como se autodeclara. Sua esposa Nina Fawcett (Sienna Miller, ótima) é sua grande incentivadora, uma mulher determinada e de ideias avançadas. Convocado a ir à Amazônia para fazer um levantamento topográfico e arbitrar uma disputa por fronteira entre a Bolívia e o Brasil – aos ingleses não interessava uma guerra na América do Sul, pois elevaria o preço da borracha – Fawcett embarca numa viagem pelas profundezas da selva que mudaria sua vida. Seu assistente, Henry Costin, é vivido por Robert Pattinson, numa atuação digna, a centenas de milhas do vampiro que o projetou.

Z-A-Cidade-Perdida pattinson

Segundo o site IMDb, James Gray teria escrito a Francis Ford Coppola, diretor do antológico Apocalypse Now (1979), pedindo conselhos sobre como filmar na selva. A resposta de Coppola foi curta e direta: “Don’t go” (Não vá). Mas eles foram. Com locações na Colômbia, o filme é uma adaptação do livro de David Grann, e tem Brad Pitt entre os produtores (originalmente, o ator viveria o explorador). Ainda que vivam histórias bem distintas, os personagens de Coppola e Gray compartilham o assombro e a visceral transformação que a imersão num mundo desconhecido, arrebatador e assustador pode provocar.

Fawcett é fortemente impactado pelo que vê na selva, pelas condições de vida dos nativos, explorados pelos barões da borracha, pelas histórias que ouve, pelo que experimenta. A obsessão para encontrar a cidade que acredita existir na selva é também alimentada pela pressão da rígida sociedade inglesa. Realizar um grande feito – de interesse da coroa inglesa – serviria para resgatar o nome de sua família, manchado pela conduta de seu falecido pai.

O orgulho da coroa inglesa também é convocado a apoiar as expedições de Fawcett, após ser divulgada a descoberta do explorador norte-americano Hiram Bingham, que revelou ao mundo a cidade perdida dos Incas, Machu Picchu, nos Andes peruanos, em 1911.

Z-A-Cidade-Perdida claquete

Enfrentando dificuldades e perigos imensos e embalado por poemas de Kipling, o explorador retorna à selva outras vezes, entre 1905 e 1925 – combatendo na 1ª Guerra, entre uma expedição e outra -, mesmo quando é ridicularizado e perde o apoio da instituição que patrocinava suas viagens. Para seus contemporâneos, os nativos das selvas sul-americanas eram seres inferiores, incapazes de construir uma civilização que merecesse admiração e respeito.

Certo de que a selva guarda essa civilização perdida, a tal Cidade Z, cujos vestígios ele havia encontrado na primeira expedição, Fawcett aposta todas as fichas numa última viagem, acompanhado pelo filho Jack (Tom Holland, tão jovem que precisou usar um bigode postiço). A vida tranquila e confortável, junto à bela esposa e aos filhos menores, não consegue demovê-lo daquilo que se tornou sua obsessão e sentido de sua vida.

z-la-ciudad-perdida com filho

Optando por uma fotografia, digamos, recatada, Gray deixa à selva amazônica o papel de ser exuberante. Do mesmo modo, a trilha sonora não briga com os sons da floresta, ao contrário, harmoniza-se com eles, criando uma atmosfera de encantamento, sedução, medo e mistério.

Uma daquelas histórias que nos intrigam e talvez até incomodem, por avivar dentro de nós a pergunta seminal: qual a razão do viver, afinal?

Trailer legendado:

https://www.youtube.com/watch?v=mRXEHMhYjw8

Z – A CIDADE PERDIDA (The lost city of Z)

EUA, 2016, 2h21m

Direção: James Gray

Roteiro: James Gray, sobre o livro de David Grann

Elenco: Charlie Hunnam, Tom Holland, Robert Pattinson, Sienna Miller

Indicação: 14 anos – Ação, Aventura, biografia

Estreia: 01/06/17

Estreia da semana: O RASTRO

O RASTRO cartaz

Alguns vão reclamar que O Rastro não se limitou a ser um filme de terror, tendo enveredado por questões sociais e políticas. Não creio que seria um problema se a proposta era exatamente o caminho inverso: partir de uma das (muitas) aberrações que vivenciamos ou assistimos pela TV diariamente – no caso, o caos nos hospitais públicos e a vida transformada em mercadoria barata – como argumento de um filme e usar o gênero terror/suspense para abordá-lo. Afinal, o que vivem médicos, pacientes, funcionários nos hospitais sucateados não é o horror?

Com apuro estético e atuações impecáveis, o longa de J.C.Feyer, contudo, derrapa nessa curva, entre terror e denúncia, oscilando e demonstrando falta de segurança na direção da trama. Em parte, o filme não desaponta quem vai ao cinema em busca de sustos e surpresas. Há suspiros, gemidos, sons abafados, suspense, sombras, cortinas e portas que sugerem mistérios, mas há também escolhas equivocadas, como o uso de sons estridentes, cortantes, totalmente dispensáveis. Esses recursos empobrecem a produção e, longe de impactar o espectador, irritam.

Por outro lado, temos ótimas atuações, com destaque para Leandra Leal (a esposa grávida do protagonista), cuja expressão corporal, gestual sutil, dá profundidade a seu personagem, para além do texto. O roteiro tem seus méritos e é capaz de prender a atenção do espectador, conduzindo a história do médico João (Rafael Cardoso) e sua busca pela verdade. Mas se fragmenta e toca superficialmente em algumas questões, perdendo vigor.

O-Rastro-terror

João é um médico cooptado pela máquina burocrática do Estado. Encarregado de coordenar a transferência dos pacientes de um hospital que será desativado para outras unidades, vê-se diante de um mistério: a menina Julia (Natalia Guedes) recém-internada, desaparece. João encara o desafio de localizá-la, o que o levará a descobertas assustadoras.

A câmera é elegante e eficiente, tanto nas cenas de suspense quanto nas demais sequências e busca ângulos inusitados. Há um uso interessante de espelhos que, contudo, peca pelo excesso.  A fotografia cria uma atmosfera de insalubridade, mortiça. Tudo é meio acinzentado. Os personagens são pálidos.

Há um cuidado com detalhes, como a aparição furtiva de um gato (ou teria sido um acaso, como o gato que Don Corleone afaga em O Poderoso Chefão e que não estava previsto na cena?), e as locações de um hospital real, quase em ruínas, conferem credibilidade à história.

O-Rastro-Montagner

A presença do ator Domingos Montagner – numa pequena participação, mas encarnando um personagem essencial na trama – ironicamente (e dolorosamente), de certa forma torna o filme mais perturbador. Merecia uma cena final mais contundente, mais elaborada, e não a cena quase pueril que o filme nos oferece.

O RASTRO (Brasil/EUA, 2016, 104 min)

Título em inglês: The trace we leave behind

Diretor: JC Feyer

Roteiro: André Pereira, Beatriz Manela

Elenco: Rafael Cardoso, Jonas Bloch, Leandra Leal, Claudia Abreu, Felipe Camargo, Alice Wegman, Domingos Montagner.

Suspense, 14 anos – violência, drogas lícitas, linguagem imprópria

Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=kTqzOe5nioU

Blog no WordPress.com.

Acima ↑