A MELHOR ESCOLHA (Last Flag Flying )

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Perdoem o trocadilho, mas A Melhor Escolha é sem dúvida uma ótima escolha para quem está a fim de pegar um cinema que seja diversão, mas não apenas. Larry (Steve Carell), Sal (Bryan Cranston, indicado ao Oscar por Trumbo) e Mueller (Laurence Fishburne), três ex-companheiros que serviram no Vietnã, levam o espectador por uma jornada instigante e divertida, recheada de comentários ácidos sobre instituições, como Igreja e Forças Armadas, e dando suas alfinetadas na paranoia coletiva sobre terroristas.

O que reúne esses três improváveis amigos, um dia ligados pela brutal experiência da guerra, 30 anos depois de lutarem na selva vietnamita e que seguiram caminhos totalmente diferentes, é uma nova e delicada missão: o enterro do filho de Larry, um jovem marine morto na guerra do Iraque. Larry vai em busca dos ex-companheiros para que compartilhem com ele aquele momento doloroso. Mas as coisas não acontecem exatamente como se poderia esperar de um funeral assim.

A cerimônia cercada de pompa no cemitério militar de Arlington, repleta de louvores ao (suposto?) heroísmo daqueles que morreram em combate e onde um oficial de alta patente recita um texto decorado, tem uma reviravolta. Escolhas têm de ser feitas e as diferentes personalidades dos amigos vão apontar caminhos divergentes.

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E no desenrolar dessa história, despontam momentos preciosos entre os amigos, desde lembranças do convívio na guerra a descobertas sobre os novos aparatos tecnológicos, onde se mesclam dor, confissões e muitas risadas. As piadas e gargalhadas entre aqueles homens maduros, numa típica conversa de veteranos, recheada de lembranças, podem ser entendidas também como uma defesa contra as amargas e chocantes memórias de uma guerra.

Last Flying Flag tem origem no livro de Darryl Ponicsan (que co-assina o roteiro), mesmo autor de The last detail, história que chegou às telas pelas mãos de Hal Ashby em 1973, batizado aqui como A Última Missão. Ambos road-movies que levam homens de farda por uma jornada improvável, por estradas físicas e imateriais.

Falar de guerra do Vietnã leva qualquer cinéfilo a pensar em Apocalypse Now, obra prima do F.F.Coppola, de 1979, como a referência ao uso de morfina, que o próprio Estado fornece e outras tantas estratégias às quais os donos das guerras recorrem para manter seus soldados focados no objetivo de matar o “inimigo”, crendo na sua missão de salvadores do mundo. “E pensar que hoje os americanos vão passar férias no Vietnã”, comenta um deles.

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Steve Carell/Larry, silencioso, embora seja o eixo em torno do qual a história gira, se posiciona num segundo plano, mas de modo algum apagado. Sua contenção é sua presença. Bryan Cranston/Sal brilha como o sujeito irreverente, beirando o irresponsável, mas o motor que faz aquele encontro, e não só o contexto do funeral em si, avançar para além da fronteira do convencional. O pastor Mueller de Fishburne é o ponto de equilíbrio, mas que também embarca na ousada aventura de confrontar normas e rituais cimentados numa cultura assentada na criação de heróis.

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Linklater acerta mais uma vez ao cruzar trajetórias pessoais com a História, num roteiro que aposta na inteligência e na informação do espectador. Como em Boyhood, acompanha a jornada de descobertas e crescimento (homens já crescidos também têm o que aprender) desses três indivíduos, com suas particularidades, numa narrativa que flui sem tropeços por emoção, humor, reflexão. E traz um desfecho que, numa leitura apressada, pode sugerir uma contradição, mas na verdade revela o amadurecimento de quem não confunde o valor do soldado que morre, com as mentiras que o sistema, que aqueles que vivem a guerra à distância, seguros em seus gabinetes, mandam contar.

E ainda tem a música de Bob Dylan. Acho que Mr. Trump não vai gostar.

A MELHOR ESCOLHA (Last flag flying)

EUA, 2017, 125 min

Direção: Richard Linklater

Roteiro: Richard Linklater, Darryl Ponicsan

Elenco: Steve Carell, Brian Cranston, Laurence Fishburne, Dontez James, Yul Vazquez

Trailer e fotos: https://imagemfilmes.com.br/filmes/164737/a-melhor-escolha

http://www.imdb.com/title/tt6018306/

 

 

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Estreia: O PASSAGEIRO (The commuter)

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Não espere nada de O Passageiro além do que pode oferecer um filme dito de ação, daqueles muito manjados. Ainda que ele tente te enganar com falsas promessas. Começa apresentando a rotina do vendedor de seguros Michael MacCauley (Liam Neeson), numa edição tipo “compacto dos melhores momentos”, que até funciona bem. O espectador faz um tour pelas dificuldades normais de um casal, as preocupações com a educação dos filhos, as contas para pagar. Passa pelos fantasmas que assombram com frequência personagens dos filmes norte-americanos, como o desemprego, hipotecas, seguros de vida, perda de benefícios corporativos. O medo do fracasso, de ser um loser, enfim.

O roteiro ensaia umas críticas ao sistema, toca em questões sociais, econômicas, como o preço das faculdades e até da pré-escola, a crise de 2008, que levou muitas pessoas a perder suas casas. Namora temas como corrupção, polícia corrompida, o papel da TV. Mas acaba descambando para um nada criativo filme de ação, onde o herói está mais para super-herói, capaz de proezas inverossímeis.

A quebra da rotina pode vir quando menos se espera e os dias todos iguais de MacCauley seguem até o protagonista ser atingido por um “tsunami”, que começa na empresa e se avoluma na sua costumeira e monótona viagem de trem. Ele é surpreendido com uma proposta inusitada, tentadora e enigmática: identificar um/a passageiro/a no trem, recuperar o que ele/ela carrega numa bolsa, e matá-lo/la. Sem conhecer as motivações de quem faz a proposta e suas implicações. É pegar ou largar. E receber um considerável punhado de dólares para isso.

O PASSAGEIRO dolares

A proposta é sugerida como um jogo onde a arma principal é a habilidade de julgar as pessoas. Negros, latinos, falsos bacanas. Pessoas estressadas, intolerantes, ou simplesmente gente “na sua”. Personagens que desfilam pelo trem suburbano em que MacCauley viaja diariamente. E ele conhece cada um. Um microcosmo da sociedade norte-americana.

De novo o longa acena com alguma reflexão, seja sobre preconceitos e estereótipos, seja sobre honestidade e até onde uma pessoa mantém sua firmeza de caráter (parêntesis para dica cultural: sobre tal tema, recomendo a peça A visita da velha senhora, em cartaz no Rio). Mas com tantos socos, edição frenética, planos fechados, não sobra espaço nem tempo para maiores exercícios mentais.

O PASSAGEIRO trem

Para piorar, apesar de algumas reviravoltas, o suspense perde força, o filme perde em interesse para quem quer algo além de chutes, tiros e sangue. É mais daquele Liam Neeson que já procurou, resgatou, vingou filhas ou esposas em outros filmes, embora mereça papéis mais consistentes.

Enfim, um trem que, apesar de desgovernado, acaba levando o espectador para uma viagem monótona.

O PASSAGEIRO (The commuter)
EUA, 2018, 105 min
Direção: Jaume Collet-Serra
Roteiro: Byron Willinger, Philip de Blasi, Ryan Engle,
Elenco: Liam Neeson, Vera Farmiga, Patrick Wilson, Jonathan Banks
Ação, suspense – Linguagem imprópria, violência
Trailer/fotos:  https://www.imagemfilmes.com.br/filmes/164793/o-passageiro
IMDb: http://www.imdb.com/title/tt1590193/

Estreia: PADDINGTON 2

 

PADDINGTON TREM

Não tenha medo de se render à fofura de Paddington. O filme é muito mais que fofo. Com um ótimo roteiro, as aventuras do ursinho peruano adotado pela família Brown vão prender a atenção do espectador até o último dos seus 104 minutos de duração.

Em sua jornada para conseguir juntar dinheiro e comprar o presente de aniversário da tia Lucy, que completa 100 anos, Paddington vai arrumar muitas confusões e acabará se envolvendo num caso policial, com perseguições, disfarces e mistério. Na verdade, ele vai se ver enrascado com a polícia, tudo por causa de um livro precioso roubado de uma loja de antiguidades.

Sem ter sido apresentada ao Paddington em seu primeiro filme (As aventuras de Paddington, de 2014, do mesmo diretor), fui surpreendida com a qualidade desta sequência. A fórmula é simples, por isso talvez falte a tantos realizadores. Uma boa história (só faça um filme se você tiver uma história para contar, adverte Martin Scorsese), bem roteirizada, sem excessos ou buracos, com personagens interessantes, conflitos bem construídos e soluções inteligentes. Juntando fantasia, humor, doçura e doses de boas lições na medida certa (nada de doutrinamento!), você ainda ganha um tour por Londres, super diferentão.

PADDINGTON família

Além de divertir e trazer aquela porção de encantamento de que todos precisamos – ainda mais nesses tempos de raras gentilezas -, o longa fala sobre preconceito, diferenças, respeito, confiança, solidariedade. Sobre solidão, inveja, socialização, sobre humanidade, enfim. Ainda que seu protagonista seja um ser peludo e de focinho comprido, personagem criado por Michael Bond, falecido no recém terminado 2017.

As aventuras de Paddington 2 tem ainda algo do delicioso Ratatouille (2007) e me trouxe, também, à lembrança um belo livro escrito há mais de 60 anos: O menino do dedo verde, de Maurice Druon. Mais não vou dizer para não me acusarem de postar spoilers.

PADDINGTON prisão

Uma delícia de filme, goste você de ursos, livros raros, tias centenárias, famílias fora do padrão, crimes misteriosos ou não. Permita-se amar Paddington!

 PADDINGTON 2  (Paddington 2)

EUA, 2017, 104min

Direção: Paul King

Roteiro: Paul King, Simon Farnaby

Elenco: Ben Whishaw, Hugh Grant, Hugh Bonneville

 

Trailer e fotos: Imagem Filmes

https://www.imagemfilmes.com.br/filmes/164666/paddington-2;jsessionid=8CE97A91D7563B999362E491AFE5737F

Estreia: RODA GIGANTE (Wonder Wheel )

 

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Ao entrar no cinema e acomodar-se em sua poltrona, o espectador mergulha, pelo olho da câmera, no universo da Roda das Maravilhas, a Wonder Wheel de Woody Allen. Uma ironia, bem ao gosto do diretor. Na verdade, o que vemos é um parque já meio decadente em Coney Island, ainda que a roda gigante não cesse de girar. E ela domina as cenas, ao fundo, sempre em movimento, como as horas, os dias, o tempo enfim.

RODA GIGANTE - GINNY

 

A vida de Ginny (Kate Winslet, arrebatadora) segue como a roda que gira, gira e não sai do lugar. Amargurada com sua existência sem brilho ao lado de Humpty (Jim Belushi), o operador do carrossel, e enlouquecida com as tendências piromaníacas do filho pré-adolescente, a moça procura uma salvação. E encontra, literalmente, no salva-vidas Mickey (Justin Timberlake) que, quando não está resgatando afogados, gosta de ler sobre filosofia.

RODA GIGANTE - CASAL PRAIA

 

É pela voz de Mickey que acompanhamos a história de uma relação já potencialmente explosiva e que se complica ainda mais com a chegada da filha de Humpty, Carolina (Juno Temple). A beldade também cai de amores pelo amante da madrasta. E, como nada é tão ruim que não possa piorar, a jovem tem matadores em seus calcanhares, a serviço de seu marido, um gângster.

Parêntesis: A fala de Carolina quando afirma que “quem casa com um bandido não pode dizer que desconhece o que ele faz” nos tira por um instante dos anos 1950 e nos traz de volta para este quase finado 2017. Se você pensou numa família do alto escalão do governo fluminense que saiu do palácio para a cadeia, é isso mesmo.

Voltemos a Coney Island. Mickey, o salva-vidas, se vê então enredado na roda dessas duas mulheres, um possível salvador de vidas arruinadas. E quem está na roda, ora está em cima, ora embaixo, ora é festa e riso, ora é choro e dor.

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O velho Allen não abandonou o humor sem-dó-nem-piedade com que recheia seus filmes, mas está mais, digamos, compenetrado. Nesse longa, os conflitos amorosos, familiares e existenciais estão mais aguçados, mais profundos, mais amargos, a la Tennessee Williams. Mas não faltam as referências irreverentes aos psiquiatras, os “médicos de cabeça”, e a judeus e carcamanos.

Ginny tem algo de Cecilia, a sonhadora protagonista de A rosa púrpura do Cairo. Ambas são garçonetes e tocam uma vidinha completamente desprovida de glamour, buscando refúgio na arte. No caso de Ginny, nas lembranças de sua frustrada carreira de atriz. Aliás, Allen, por meio de seus personagens, homenageia o teatro, a literatura, o próprio cinema. Atente para o cartaz do filme numa das cenas: Winchester’ 73, um western clássico de 1950. Detalhes que tornam um filme ainda mais saboroso.

RODA GIGANTE - JIM BELUSHI

Com um elenco afinado (Belushi, em quem não reconheci o companheiro do cão policial K-9, está a altura de Winslet), uma bela fotografia (assinada pelo oscarizado italiano Vittorio Storaro), uma luz que carrega de dramaticidade os rostos, os charmosos figurinos de época, mais a música envolvente de sempre, este filme, caso Allen estivesse se aposentando, seria um belo e digno jeito de encerrar sua carreira.

 RODA GIGANTE (Wonder Wheel)

EUA, 2017, 1h41min

Roteiro e direção: Woody Allen

Elenco: Kate Winslet, Juno Temple, Jim Belushi, Justin Timberlake

Drama, violência, drogas lícitas

Trailer e fotos :

Imagem Filmes:  https://imagemfilmes.com.br/filmes/164706/roda-gigante

IMDb: http://www.imdb.com/title/tt5825380/

Mars Films: http://www.marsfilms.com/film/wonder-wheel/

 

Estreia: O PODER E O IMPOSSÍVEL (6 Below: Miracle on The Mountain)

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Tragédias em montanhas, mais ou menos cobertas de neve, têm ocupado as telas dos cinemas ultimamente. Ao dispensável (e até constrangedor, um desperdício de belas locações e talentos) Uma montanha entre nós e ao louvável Gabriel e a Montanha vem se juntar O poder e o impossível, também baseado numa história verídica.

O personagem real, no caso, é Eric LeMarque (Josh Hartnett), atleta olímpico de hóquei no gelo, com um conturbado histórico de uso de drogas pesadas. Tentando repensar a vida, LeMarque viaja para uma estação de esqui para praticar snowboard. Pego por uma tempestade de neve, o atleta se perde na imensidão branca.

Filmes baseados em acidentes e catástrofes e a superação de adversidades extremas sempre perigam debandar para o exagero e o dramalhão rasgado. No caso do longa de Scott Waugh a coisa fica mais complicada, em função das escolhas (preguiçosas?) do diretor. A produção começa apostando num estilo com jeito de reportagem sobre esportes radicais, explorando exaustivamente as manobras perigosas e descidas vertiginosas do snowboarder.

Enquanto tenta sobreviver, Eric revive momentos de seu passado e da difícil relação com o pai, que jogava sobre o filho imensas expectativas e o assombrava com o fantasma do fracasso. A narrativa vai se tornando repetitiva e pouco criativa, ganhando alguma emoção apenas nos 20 ou 30 minutos finais, quando começam as buscas.

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Os muitos closes no rosto do ator também nada acrescentam à trama que segue burocrática e carente de densidade. E ainda tem uma trilha sonora que faz lembrar aquelas novelas bíblicas que certa emissora de TV gosta de explorar. Eu chamo de “música de Mar Vermelho se abrindo”. Um exagero!

O filme pode evocar no espectador algumas outras histórias reais levadas à tela, como a do longa Na natureza selvagem (Into the wild, 2007) ou a do brasileiro Gabriel Buchmann, já citada, mas as semelhanças se resumem ao fato de traçarem a jornada de jovens perdidos em suas buscas por sua identidade, por sua razão de viver, por paz e autoconhecimento.

Há, sim, belas tomadas aéreas, belas imagens, seja de dia, com o branco dominando a tela, ou uma linda noite estrelada. E uma sacada interessante: a analogia da bateria do equipamento de localização de LeMarque com o sopro de vida que lhe resta.

Pode ainda gerar alguma reflexão sobre as fronteiras entre ousadia, coragem e inconsequência, ou sobre o respeito às forças da natureza (e a lembrança que me vem à mente é “Cem dias entre céu e mar”, do navegador Amyr Klink). Ou ainda sobre a inevitabilidade do destino.

A mensagem de que as mais tenebrosas adversidades podem ser vencidas (com a ajuda de outros) e uma tragédia pessoal pode ser uma porta para outras conquistas na vida, desde que se esteja disposto a assim encará-la, não chega a redimir o filme de sua pouca inspiração, mas lhe confere algum mérito.

O PODER E O IMPOSSÍVEL (6 Below: Miracle on The Mountain)

EUA, 2017, 1h38min

Direção: Scott Waugh

Roteiro: Madison Turner e Eric LeMarque (autor do livro)

Elenco: Josh Hartnett, Mira Sorvino, Sarah Dumont

Aventura, biografia, drama

Imagem Filmes: https://imagemfilmes.com.br/filmes/164757/o-poder-e-o-impossivel
IMDb: http://www.imdb.com/title/tt5503688/

 

 

Estreia: O ESTADO DAS COISAS (Brad’s status)

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A costumeira ineficiência em traduzir títulos de filmes se manifesta, mais uma vez. A opção dos nomeadores de plantão para “Brad’s status” é inadequada não só porque não traduz o sentido do título original, centrado no personagem, mas ainda rouba a conexão com as redes sociais que alimentam a obsessão de Brad (status sequer é palavra de origem inglesa, nem deveria ser traduzida).  Para piorar, o título é idêntico ao do longa dirigido por Wim Wenders, em 1982,  ganhador do Leão de Ouro (este sim, traduzido corretamente de The state of the things).

Queixa registrada, vamos falar de Brad (Ben Stiller) e sua capacidade em transformar coisas simples em problemas, o tal hábito de enxergar o copo sempre meio vazio. Tudo a sua volta parece humilhá-lo. Cada postagem dos antigos amigos ou sua aparição em revistas classe A parece gritar na sua cara seu suposto fracasso. São ricos, felizes, belos e famosos.

Morar numa boa casa, realizar um trabalho gratificante e digno (Brad comanda uma ONG), ter uma esposa bonita e companheira e um filho talentoso pode realmente não preencher as expectativas de vida de uma pessoa. Mas, no caso de Brad, a questão não é se sentir impelido a alcançar algo maior, como uma missão na vida. Ele não questiona suas escolhas por estar insatisfeito com elas propriamente, mas por compará-las a um padrão que a sociedade definiu como “sucesso”. Se você está fora dele, meu caro, você é um looser, um zero à esquerda.

Padrões que são reforçados o tempo todo pela mídia, pela publicidade. Disseminados como epidemia pelas redes sociais. Ter status, ser especial, superior, VIP. Ser reconhecido, reverenciado, bajulado. Como se alcança isso, como é, o que é? Uma sociedade que abandonou o “ser” pelo “ter”, e este pelo “parecer”. E Brad sofre por querer copiar a vida do outro, que julga ser um eterno playground em contraste com a sua, um campo de batalha. E o que dói mais: a própria suposta derrota ou o êxito do outro?

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A jornada de Brad do inferno interior em que mergulhou à busca pela redenção acontece na jornada real que faz com seu filho adolescente, Troy (Austin Abrams), músico promissor, por renomadas universidades norte-americanas. O garoto tem entrevistas agendadas, inclusive em Harvard, e o sucesso do filho pode conferir a Brad a distinção (alô, Pierre Bourdieu!) que ele almeja, pode ser sua chance de esfregar na cara da sociedade que ele também está no topo da pirâmide.

Uma cena, no avião em que viajam pai e filho, quando é fechada a cortina que separa as classes de passageiros, resume com sutileza, mas precisão, o sentimento de Brad em relação à sociedade onde vive.

Este “O Estado das Coisas” não chega a ter cacife para disputar um Leão de Ouro em Veneza, como seu xará, mas tem seus méritos. Roteiro, fotografia, diálogos, trabalham a favor da história que o filme se propõe a contar e Ben Stiller está convincente no papel do atormentado (ainda que geralmente contido) Brad. A narrativa em off do personagem central aproxima o espectador de seus sentimentos, de suas angústias, dúvidas, contradições e, sim, de suas autocríticas: inveja do próprio filho? Tentação de transferir a outros a culpa por seu “fracasso”?

O diálogo interno incessante joga nosso herói para lá e para cá. E ele vai fazendo descobertas, dentro e fora de si. Um percurso que pode levá-lo a questionar a “amizade” entre os antigos companheiros, a refletir sobre valores, sobre a essência das coisas que viveu e possui e sobre o quanto importa a opinião alheia e quais pessoas cuja opinião realmente é importante.

O ESTADO DAS COISAS (Brad´s Status)

EUA, 2017,  102 min.

Direção e roteiro: Mike White

Elenco: Ben Stiller, Austin Abrams, Jenna Fischer

Trailer oficial: https://www.youtube.com/watch?v=Ynhq3y7nEJk

Imagem Filmes:  https://www.imagemfilmes.com.br/filmes/164707/o-estado-das-coisas

IMDb:  http://www.imdb.com/title/tt5884230/ 

Estreia: SOUNDTRACK

O SOM INTERIOR:

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Num mundo dominado por imagens, Soundtrack propõe direcionar o foco para outro sentido, ainda que seu protagonista, Cris, seja um fotógrafo. Encarnado pelo sempre afinado Selton Mello, Cris viaja a “outro planeta”, o Ártico, onde pretende fazer selfies enquanto ouve uma determinada trilha sonora. A ideia do artista é que, ao ver o trabalho exposto e ouvindo as tais músicas por meio de fones de ouvido, o público possa experimentar as sensações que ele teve no momento do clique.

É de se esperar que uma ideia assim incomum provoque reações nem sempre amistosas nos companheiros da base, pesquisadores, homens das ciências (mas nem por isso desprovidos de sensibilidade). O grupo é composto pelo britânico Mark (Ralph Ineson, ótimo), pelo brasileiro Cao (Seu Jorge), o chinês Huang (Thomas Chaanhing) e o dinamarquês Rafnar (Lukas Loughran).

Entre olhares enviesados, choques diretos, atritos e risos, regados a doses de vinho, os cinco homens vão convivendo com suas diferenças e descobertas. Filosofam sobre felicidade e a existência de um deus. Suas motivações e crenças. Sobre ciência e arte.

O clima dos ambientes internos, nos containers onde convivem, é quase sempre sombrio e intimista, em contraste com o branco estourado do lado de fora e a amplidão da paisagem que, na verdade, é apenas sugerida, afinal o filme foi todo rodado em estúdio.

O problema é que esta experiência coletiva, bem como a experiência pessoal do protagonista e sua mudança de perspectiva sobre o propósito de sua arte, é superficial, apenas sugerida ao espectador, que é mantido alijado das sensações que o longa propõe. Até o elemento base do argumento – associar os sentidos de visão e audição – é negado ao público nos momentos-chave.

Se acerta ao ficar longe de sentimentalismos ou do didatismo, o filme peca ao não traduzir de modo mais convincente as nuances dos personagens. Acreditar na inteligência do espectador, ou do leitor, é uma virtude. Mas aqui não é o caso.

A dupla que assina a direção como 300ml é composta por Manitou e Bernardo Rocha. Manitou passou por várias produções da Rede Globo, partindo depois para a produção, redação publicitária e direção. Bernardo Dutra é diretor e ator. A dupla tem no currículo o ótimo curta Tarantino’s Mind, onde Selton Mello e Seu Jorge discutem teses sobre a sangrenta obra de Quentin Tarantino.

Soundtrack é um daqueles filmes que não se encaixam propriamente na definição de “bom” ou “ruim”. É insatisfatório. Uma câmera na mão e uma boa ideia na cabeça, que não encontrou seu melhor caminho – sua trilha – para chegar às telas, aos corações e mentes do público.

 

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Brasil, 2017, 112 min

Direção e roteiro: 300ml

Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=oU_L_tEumxY

Imagem Filmes: https://imagemfilmes.com.br/filmes/164729/soundtrack

NEVE NEGRA: Tá quente, tá frio

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Se a cinematografia hermana fosse a tabela do Brasileirão, Neve Negra  estaria naquela meiuca, perigando cair para a zona de rebaixamento. Um filme que destoa, em qualidade dramatúrgica, da recente produção argentina. Talvez tenhamos ficado mal acostumados.

Claro, não esperamos que toda hora surja nas telas algo do nível de O segredo dos seus olhos (Juan Jose Campanella, 2009) ou Nove Rainhas (Fabián Bielinski, 2000, que teve Hodara como assistente de direção). Mas Neve Negra peca principalmente por sua pretensão. Promete uma sessão de mistério e suspense, mas não consegue segurar esse clima nos 90 minutos do tempo regulamentar.  Pode ser mesmo entediante em vários momentos, apesar de partir de um argumento promissor. Ricardo Darín, sem dúvida, é o grande atrativo do longa.

Acusado de matar o irmão mais novo, décadas atrás, Salvador (Ricardo Darín) exilou-se na Patagônia. A morte do pai leva seu outro irmão, Marcos (Leonardo Sbaraglia) a procurá-lo a fim de tratarem da venda do patrimônio que herdaram. Uma oferta milionária de uma empresa estrangeira interessada nas terras supera qualquer desavença familiar, convenhamos.

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Com a desculpa de que precisa atender ao desejo do pai e depositar suas cinzas junto ao local onde o filho foi enterrado, Marcos, esposa grávida a tiracolo (Laia Costa), parte para as terras geladas do sul da Argentina. Salvador, claro, não vê com agrado aquela invasão em seu refúgio.

A ação passa então a se desenrolar em dois tempos distintos. Os flashbacks vão revelando o passado daquela família, onde as relações não eram exatamente afáveis. Em alguns momentos o filme nos remete ao excelente dinamarquês/sueco A Caça (Thomas Vinterberg, 2012), mais pelo cenário gélido e o iminente perigo de uma “bala de rifle de caça perdida”.

Ao final, o filme se redime em parte da pouca criatividade do roteiro e oferece um desfecho interessante, ainda que não surpreendente, com uma personagem secundária assumindo o controle e de certo modo ditando os rumos de uma trágica história.

NEVE NEGRA (Nieve negra)

Argentina/Espanha, 2017, 1h 30min

Crime, drama, mistério

Direção: Martin Hodara

Roteiro: Leonel D’Agostino, Martin Hodara

IMDb: http://www.imdb.com/title/tt5614612/

 

QUEM É PRIMAVERA DAS NEVES: no cinema, a melhor tradução

QUEM É PRIMAVERA DAS NEVES - ela

 

Assisti a essa pequena joia no Festival É tudo Verdade, em maio (post aqui), e é com alegria que a vejo chegar ao circuito.

O documentário de Ana Luiza Azevedo e Jorge Furtado faz um resgate extremamente delicado de uma personagem de nome incomum e vida, se não tão incomum, nada banal. Movido pela curiosidade, Furtado foi atrás da história dessa mulher com nome de pseudônimo.

Descobriu a trajetória de uma mulher, fruto do casamento de um anarquista português com uma sufragista espanhola, que veio para o Brasil aos nove anos, adolescente voltou a Portugal, casou-se com um militar português e, fugindo do regime salazarista, se fixou com o marido em terras brasileiras.

QUEM É PRIMAVERA DAS NEVES - Lima e Furtado

A importância de Primavera das Neves para a literatura publicada em língua portuguesa é pouco ou nada conhecida.  Lemos as obras e nem sempre nos damos conta de que estamos lendo uma tradução, uma interpretação da obra original. Geralmente só atentamos para o nome do/da tradutor/a quando é alguém famoso por aqui.

Num curso de Especialização de Tradutores que fiz décadas atrás, ouvia-se o lema: “a tradução deve ser tão fiel quanto possível, tão livre quanto necessário”. Ou seja, o tradutor é um escritor, não apenas converte palavras, expressões, de um idioma para outro, como quem converte pesos e medidas. É preciso recriar o texto, adaptá-lo, torná-lo inteligível, sem perder a essência original. E assim pode fazer viver a obra numa outra língua, ou arruiná-la. Tradutor-traidor é uma expressão conhecida no meio.

Poliglota, Primavera das Neves foi tradutora de autores consagrados, como Lewis Carroll, Emily Brontë, Vladimir Nabokov, John Le Carré, Julio Verne, Emily Dickinson, e outros mais. Escreveu também delicados e profundos poemas.

Os diretores conduzem com maestria a história dessa mulher singular, sensível e forte, numa narrativa belamente construída, mesclando depoimentos deliciosos de gente que conviveu com Vera, como o ex-marido e as ex-colegas de colégio Eulalie Ligneul (que criatura adorável!) e a artista plástica Anna Bella Geiger.

Textos traduzidos por Primavera das Neves (que também assinava suas traduções como Vera Neves Pedroso) e alguns de seus poemas vão costurando a história, pontuando momentos da vida da própria personagem, numa interpretação impecável de Mariana Lima.

A curiosidade, dizem, matou o gato. Mas também pode levar a descobertas sensacionais.

Trailer: http://globofilmes.globo.com/filme/quem-e-primavera-das-neves/

No Facebook: https://www.facebook.com/quemeprimaveradasneves/

Primavera das Neves na wiki: https://pt.wikipedia.org/wiki/Primavera_das_Neves

Sobre tradução, um interessante artigo acadêmico aqui.

 

QUEM É PRIMAVERA DAS NEVES

Brasil, 2017, 75 min

Direção: Ana Luiza Azevedo e Jorge Furtado

Roteiro: Jorge Furtado, Pedro Furtado

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