NEVE NEGRA: Tá quente, tá frio

neve negra darin

Se a cinematografia hermana fosse a tabela do Brasileirão, Neve Negra  estaria naquela meiuca, perigando cair para a zona de rebaixamento. Um filme que destoa, em qualidade dramatúrgica, da recente produção argentina. Talvez tenhamos ficado mal acostumados.

Claro, não esperamos que toda hora surja nas telas algo do nível de O segredo dos seus olhos (Juan Jose Campanella, 2009) ou Nove Rainhas (Fabián Bielinski, 2000, que teve Hodara como assistente de direção). Mas Neve Negra peca principalmente por sua pretensão. Promete uma sessão de mistério e suspense, mas não consegue segurar esse clima nos 90 minutos do tempo regulamentar.  Pode ser mesmo entediante em vários momentos, apesar de partir de um argumento promissor. Ricardo Darín, sem dúvida, é o grande atrativo do longa.

Acusado de matar o irmão mais novo, décadas atrás, Salvador (Ricardo Darín) exilou-se na Patagônia. A morte do pai leva seu outro irmão, Marcos (Leonardo Sbaraglia) a procurá-lo a fim de tratarem da venda do patrimônio que herdaram. Uma oferta milionária de uma empresa estrangeira interessada nas terras supera qualquer desavença familiar, convenhamos.

Neve-Negra irmãos

Com a desculpa de que precisa atender ao desejo do pai e depositar suas cinzas junto ao local onde o filho foi enterrado, Marcos, esposa grávida a tiracolo (Laia Costa), parte para as terras geladas do sul da Argentina. Salvador, claro, não vê com agrado aquela invasão em seu refúgio.

A ação passa então a se desenrolar em dois tempos distintos. Os flashbacks vão revelando o passado daquela família, onde as relações não eram exatamente afáveis. Em alguns momentos o filme nos remete ao excelente dinamarquês/sueco A Caça (Thomas Vinterberg, 2012), mais pelo cenário gélido e o iminente perigo de uma “bala de rifle de caça perdida”.

Ao final, o filme se redime em parte da pouca criatividade do roteiro e oferece um desfecho interessante, ainda que não surpreendente, com uma personagem secundária assumindo o controle e de certo modo ditando os rumos de uma trágica história.

NEVE NEGRA (Nieve negra)

Argentina/Espanha, 2017, 1h 30min

Crime, drama, mistério

Direção: Martin Hodara

Roteiro: Leonel D’Agostino, Martin Hodara

IMDb: http://www.imdb.com/title/tt5614612/

 

QUEM É PRIMAVERA DAS NEVES: no cinema, a melhor tradução

QUEM É PRIMAVERA DAS NEVES - ela

 

Assisti a essa pequena joia no Festival É tudo Verdade, em maio (post aqui), e é com alegria que a vejo chegar ao circuito.

O documentário de Ana Luiza Azevedo e Jorge Furtado faz um resgate extremamente delicado de uma personagem de nome incomum e vida, se não tão incomum, nada banal. Movido pela curiosidade, Furtado foi atrás da história dessa mulher com nome de pseudônimo.

Descobriu a trajetória de uma mulher, fruto do casamento de um anarquista português com uma sufragista espanhola, que veio para o Brasil aos nove anos, adolescente voltou a Portugal, casou-se com um militar português e, fugindo do regime salazarista, se fixou com o marido em terras brasileiras.

QUEM É PRIMAVERA DAS NEVES - Lima e Furtado

A importância de Primavera das Neves para a literatura publicada em língua portuguesa é pouco ou nada conhecida.  Lemos as obras e nem sempre nos damos conta de que estamos lendo uma tradução, uma interpretação da obra original. Geralmente só atentamos para o nome do/da tradutor/a quando é alguém famoso por aqui.

Num curso de Especialização de Tradutores que fiz décadas atrás, ouvia-se o lema: “a tradução deve ser tão fiel quanto possível, tão livre quanto necessário”. Ou seja, o tradutor é um escritor, não apenas converte palavras, expressões, de um idioma para outro, como quem converte pesos e medidas. É preciso recriar o texto, adaptá-lo, torná-lo inteligível, sem perder a essência original. E assim pode fazer viver a obra numa outra língua, ou arruiná-la. Tradutor-traidor é uma expressão conhecida no meio.

Poliglota, Primavera das Neves foi tradutora de autores consagrados, como Lewis Carroll, Emily Brontë, Vladimir Nabokov, John Le Carré, Julio Verne, Emily Dickinson, e outros mais. Escreveu também delicados e profundos poemas.

Os diretores conduzem com maestria a história dessa mulher singular, sensível e forte, numa narrativa belamente construída, mesclando depoimentos deliciosos de gente que conviveu com Vera, como o ex-marido e as ex-colegas de colégio Eulalie Ligneul (que criatura adorável!) e a artista plástica Anna Bella Geiger.

Textos traduzidos por Primavera das Neves (que também assinava suas traduções como Vera Neves Pedroso) e alguns de seus poemas vão costurando a história, pontuando momentos da vida da própria personagem, numa interpretação impecável de Mariana Lima.

A curiosidade, dizem, matou o gato. Mas também pode levar a descobertas sensacionais.

Trailer: http://globofilmes.globo.com/filme/quem-e-primavera-das-neves/

No Facebook: https://www.facebook.com/quemeprimaveradasneves/

Primavera das Neves na wiki: https://pt.wikipedia.org/wiki/Primavera_das_Neves

Sobre tradução, um interessante artigo acadêmico aqui.

 

QUEM É PRIMAVERA DAS NEVES

Brasil, 2017, 75 min

Direção: Ana Luiza Azevedo e Jorge Furtado

Roteiro: Jorge Furtado, Pedro Furtado

O CIDADÃO ILUSTRE – Ensaio sobre a hipocrisia

O CIDADÃO ILUSTRE - NobelNo futebol, há equipes que dominam cada m2 do gramado. Como uma engrenagem, se armam de modo que passes, lançamentos, se completem, criando uma rede que aprisiona o adversário. Nas telas, há também filmes assim.

Não diria que O Cidadão Ilustre é uma obra maior do cinema argentino, mas, se no todo é um belo exemplar do cinema hermano, em cada detalhe, cada plano, cada sequência, cada fala, é certeiro. Como de costume na filmografia de nossos vizinhos, os personagens são bem construídos, o texto convincente. Sob a batuta de Gastón Duprat e Mariano Cohn (que dirigiram o ótimo O homem ao lado, 2009, também uma ácida versão de embate entre classes sociais), as atuações são na medida.

A jornada do Premio Nobel de Literatura Daniel Mantovani (Oscar Martínez) por Salas, cidade onde nasceu, cujos habitantes inspiram seus livros e na qual não bota os pés há quatro décadas, é uma jornada pela alma humana. Sua amabilidade e sua mesquinharia, onde a hipocrisia leva o troféu.

O CIDADÃO ILUSTRE BOMBEIROS

O CIDADÃO ILUSTRE - povo

Mantovani pega pesado. Todo trabalhado na arrogância, pode ir de simplesmente desagradável a curto e grosso. Mas também pode derreter o gelo que carrega no peito, de vez em quando. E sorrir, e dar autógrafos, e posar ao lado da rainha da beleza local.

A princípio curioso e até entusiasmado a percorrer as ruas de seu passado, Mantovani deixa Barcelona, onde vive com luxo e conforto, e segue para a terra natal. Lá, entre pedidos de ajuda e algumas demonstrações de desinteressado apreço e mesmo doçura, o premiado autor vai sendo envolvido numa trama, numa teia onde sorrisos podem esconder dentes afiados, prontos para morder.

O cidadao-ilustre - namorada

Para além do confronto entre bom e mau gosto, entre alta e baixa cultura, entre metrópole e cidadezinha, estão as práticas tão conhecidas de nós de troca de favores, bajulação, apego a fórmulas as quais sabe lá quem inventou. Apego à ordem estabelecida. Novos olhares, novos pontos de vista, podem ser perigosos em alguns rincões.

Não há moços bonzinhos por quem torcermos nesse filme (ou melhor, talvez por um discreto rapaz, que ganha estatura ao final do longa). Há gente. Gente que nasceu para brilhar e gente que nasceu para apagar as luzes alheias. Gente que tem medo e se cala, e gente que põe as mordaças. E um homem cuja alma atravessa vales de afeto, desprezo, saudade, impaciência, dobrando-se eventualmente a forças contrárias, mas determinado o bastante para se reerguer. E a arte segue seu rumo, guerreando consigo mesma, sem fazer concessões.

Mais um gol para nossos vizinhos.

O CIDADÃO ILUSTRE (El ciudadano ilustre)

Argentina/Espanha, 2016, 1h58m

Direção: Gastón Duprat, Mariano Cohn

Roteiro: Andrés Duprat

Elenco: Oscar Martínez, Dady Brieva, Andrea Frigerio

Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=0raD8Z_mKWU

IMDB: http://www.imdb.com/title/tt4562518/

Estreia da semana: Z – A CIDADE PERDIDA

z-a-cidade-perdida-aldeiaAs sequências iniciais do longa de James Gray são de muita ação, numa feroz caça ao veado, pelas belas paisagens da Irlanda. Apesar de ser um filme (também) de aventura, o desenrolar da história segue com certa morosidade, como o ritmo de um rio que corre sem sobressaltos. O que não significa marasmo ou que vá entediar o espectador. O próprio personagem é contido em seus gestos e reações, ainda que sua história seja ditada por uma paixão.

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Percival Fawcett (Charlie Hunnam) é um oficial que não goza de grande prestígio nas altas rodas do império britânico, apesar de suas habilidades. Um major sem medalhas, como se autodeclara. Sua esposa Nina Fawcett (Sienna Miller, ótima) é sua grande incentivadora, uma mulher determinada e de ideias avançadas. Convocado a ir à Amazônia para fazer um levantamento topográfico e arbitrar uma disputa por fronteira entre a Bolívia e o Brasil – aos ingleses não interessava uma guerra na América do Sul, pois elevaria o preço da borracha – Fawcett embarca numa viagem pelas profundezas da selva que mudaria sua vida. Seu assistente, Henry Costin, é vivido por Robert Pattinson, numa atuação digna, a centenas de milhas do vampiro que o projetou.

Z-A-Cidade-Perdida pattinson

Segundo o site IMDb, James Gray teria escrito a Francis Ford Coppola, diretor do antológico Apocalypse Now (1979), pedindo conselhos sobre como filmar na selva. A resposta de Coppola foi curta e direta: “Don’t go” (Não vá). Mas eles foram. Com locações na Colômbia, o filme é uma adaptação do livro de David Grann, e tem Brad Pitt entre os produtores (originalmente, o ator viveria o explorador). Ainda que vivam histórias bem distintas, os personagens de Coppola e Gray compartilham o assombro e a visceral transformação que a imersão num mundo desconhecido, arrebatador e assustador pode provocar.

Fawcett é fortemente impactado pelo que vê na selva, pelas condições de vida dos nativos, explorados pelos barões da borracha, pelas histórias que ouve, pelo que experimenta. A obsessão para encontrar a cidade que acredita existir na selva é também alimentada pela pressão da rígida sociedade inglesa. Realizar um grande feito – de interesse da coroa inglesa – serviria para resgatar o nome de sua família, manchado pela conduta de seu falecido pai.

O orgulho da coroa inglesa também é convocado a apoiar as expedições de Fawcett, após ser divulgada a descoberta do explorador norte-americano Hiram Bingham, que revelou ao mundo a cidade perdida dos Incas, Machu Picchu, nos Andes peruanos, em 1911.

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Enfrentando dificuldades e perigos imensos e embalado por poemas de Kipling, o explorador retorna à selva outras vezes, entre 1905 e 1925 – combatendo na 1ª Guerra, entre uma expedição e outra -, mesmo quando é ridicularizado e perde o apoio da instituição que patrocinava suas viagens. Para seus contemporâneos, os nativos das selvas sul-americanas eram seres inferiores, incapazes de construir uma civilização que merecesse admiração e respeito.

Certo de que a selva guarda essa civilização perdida, a tal Cidade Z, cujos vestígios ele havia encontrado na primeira expedição, Fawcett aposta todas as fichas numa última viagem, acompanhado pelo filho Jack (Tom Holland, tão jovem que precisou usar um bigode postiço). A vida tranquila e confortável, junto à bela esposa e aos filhos menores, não consegue demovê-lo daquilo que se tornou sua obsessão e sentido de sua vida.

z-la-ciudad-perdida com filho

Optando por uma fotografia, digamos, recatada, Gray deixa à selva amazônica o papel de ser exuberante. Do mesmo modo, a trilha sonora não briga com os sons da floresta, ao contrário, harmoniza-se com eles, criando uma atmosfera de encantamento, sedução, medo e mistério.

Uma daquelas histórias que nos intrigam e talvez até incomodem, por avivar dentro de nós a pergunta seminal: qual a razão do viver, afinal?

Trailer legendado:

https://www.youtube.com/watch?v=mRXEHMhYjw8

Z – A CIDADE PERDIDA (The lost city of Z)

EUA, 2016, 2h21m

Direção: James Gray

Roteiro: James Gray, sobre o livro de David Grann

Elenco: Charlie Hunnam, Tom Holland, Robert Pattinson, Sienna Miller

Indicação: 14 anos – Ação, Aventura, biografia

Estreia: 01/06/17

Estreia da semana: O RASTRO

O RASTRO cartaz

Alguns vão reclamar que O Rastro não se limitou a ser um filme de terror, tendo enveredado por questões sociais e políticas. Não creio que seria um problema se a proposta era exatamente o caminho inverso: partir de uma das (muitas) aberrações que vivenciamos ou assistimos pela TV diariamente – no caso, o caos nos hospitais públicos e a vida transformada em mercadoria barata – como argumento de um filme e usar o gênero terror/suspense para abordá-lo. Afinal, o que vivem médicos, pacientes, funcionários nos hospitais sucateados não é o horror?

Com apuro estético e atuações impecáveis, o longa de J.C.Feyer, contudo, derrapa nessa curva, entre terror e denúncia, oscilando e demonstrando falta de segurança na direção da trama. Em parte, o filme não desaponta quem vai ao cinema em busca de sustos e surpresas. Há suspiros, gemidos, sons abafados, suspense, sombras, cortinas e portas que sugerem mistérios, mas há também escolhas equivocadas, como o uso de sons estridentes, cortantes, totalmente dispensáveis. Esses recursos empobrecem a produção e, longe de impactar o espectador, irritam.

Por outro lado, temos ótimas atuações, com destaque para Leandra Leal (a esposa grávida do protagonista), cuja expressão corporal, gestual sutil, dá profundidade a seu personagem, para além do texto. O roteiro tem seus méritos e é capaz de prender a atenção do espectador, conduzindo a história do médico João (Rafael Cardoso) e sua busca pela verdade. Mas se fragmenta e toca superficialmente em algumas questões, perdendo vigor.

O-Rastro-terror

João é um médico cooptado pela máquina burocrática do Estado. Encarregado de coordenar a transferência dos pacientes de um hospital que será desativado para outras unidades, vê-se diante de um mistério: a menina Julia (Natalia Guedes) recém-internada, desaparece. João encara o desafio de localizá-la, o que o levará a descobertas assustadoras.

A câmera é elegante e eficiente, tanto nas cenas de suspense quanto nas demais sequências e busca ângulos inusitados. Há um uso interessante de espelhos que, contudo, peca pelo excesso.  A fotografia cria uma atmosfera de insalubridade, mortiça. Tudo é meio acinzentado. Os personagens são pálidos.

Há um cuidado com detalhes, como a aparição furtiva de um gato (ou teria sido um acaso, como o gato que Don Corleone afaga em O Poderoso Chefão e que não estava previsto na cena?), e as locações de um hospital real, quase em ruínas, conferem credibilidade à história.

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A presença do ator Domingos Montagner – numa pequena participação, mas encarnando um personagem essencial na trama – ironicamente (e dolorosamente), de certa forma torna o filme mais perturbador. Merecia uma cena final mais contundente, mais elaborada, e não a cena quase pueril que o filme nos oferece.

O RASTRO (Brasil/EUA, 2016, 104 min)

Título em inglês: The trace we leave behind

Diretor: JC Feyer

Roteiro: André Pereira, Beatriz Manela

Elenco: Rafael Cardoso, Jonas Bloch, Leandra Leal, Claudia Abreu, Felipe Camargo, Alice Wegman, Domingos Montagner.

Suspense, 14 anos – violência, drogas lícitas, linguagem imprópria

Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=kTqzOe5nioU

FESTIVAL É TUDO VERDADE 2017

É Tudo Verdade 2017

Em plena maioridade, na sua 22ª edição, foi encerrado no último domingo o Festival É Tudo Verdade 2017, criação de Amir Labaki. Ainda que documentários já não sejam tão raros nas salas de cinema, o festival que só fala verdades (de quem fala, de quem filma, de quem edita, de quem assiste) é um mundo de descobertas.

Num tempo de “pós-verdades” e “fatos alternativos”, ter acesso a fontes de informação fora da mídia tradicional, das grandes corporações, dos propagadores do “ouvi falar… postaram… eu compartilhei…” é uma oportunidade preciosa.  O Festival abarca uma gama de produções de temas, origens e abordagens diversas. Um recorte do mundo de ontem e hoje e que, de certa forma, aponta para o futuro, ao trazer informação e provocar questionamentos.

Este ano, o Festival trouxe a mostra 100: De Volta à URSS, um uma viagem pelos variados momentos da História russa/soviética, com diferentes estética e olhares. Na mostra, filmes assinados por ícones como Dziga Vertov (Avante, Soviete!, 1926) e Sokurov (Elegia Soviética, 1989). Desde o ufanismo do pós-revolução (Moscou, de Mikhail Kaufman e Ilya Kopalin, 1927) aos recentes conflitos na Ucrânia (Relações Próximas, de Vitaly Manski, 2016), a história da nação que sacudiu o mundo cem anos atrás, com a revolução bolchevique, é repassada em imagens fascinantes e depoimentos instigantes.

Do lado brazuca, uma joia é Quem é Primavera das Neves, um resgate extremamente delicado de uma personagem de nome e vida incomuns e cuja importância para a literatura de língua portuguesa é pouco ou nada conhecida.  Ana Luiza Azevedo e Jorge Furtado conduzem com a maestria a história de Primavera, tradutora de obras clássicas, numa narrativa belamente construída, mesclando depoimentos deliciosos de gente que conviveu com Vera, como as ex-colegas de colégio Eulalie Ligneul e a artista plástica Anna Bella Geiger.  Textos traduzidos por Primavera (que também assinava suas traduções como Vera Neves Pedroso) são utilizados para pontuar momentos da vida da própria personagem, numa interpretação impecável de Mariana Lima.

Para quem tem fascínio pelo fazer cinema e adora saber o que rola por trás das câmeras, um filme simplesmente sedutor é 78/52 (Alexandre O. Philippe, 2017) que faz um verdadeiro raio X de uma das cenas mais famosas, citadas, copiadas do cinema: a do chuveiro, em Psicose (A.Hitchcock, 1960). Além dos detalhes técnicos, das escolhas do diretor, temos depoimentos reveladores, como da dublê de Janet Leigh, uma adorável ex-pin-up. Técnicos, críticos, diretores e atores (como Guillermo del Toro e Gus van Sant) contextualizam a temática do filme e o papel que cabia às atrizes e à representação da mulher nas telas no final dos anos 1950.

Vida longa ao É Tudo Verdade!

Estreia da semana: CÃES SELVAGENS (Dog eat dog)

cães selvagens cartaz

Misture Tarantino com os Irmãos Coen, acrescente uma pitada de Os Três Patetas, cubra com uma camada de fotografia caprichada e sorva em grandes goles, com algumas pausas para respirar e pensar na vida. Se Cães Selvagens fosse um drink, a receita bem poderia ser assim.

Eu podia também, senhores, estar evocando aqui os Filmes de Sangueira e Mulher Pelada do catarinense Petter Baiestorf, versão trash/Baixo Orçamento ou BO (muito BO) de Tarantino. Mas não vou saturá-los de referências. Aliás, referências são uma constante na boca de Troy (Nicholas Cage), um criminal que costuma filosofar e faz planos de viagens românticas com garotas de programa.

Nicholas Cage é um ator que a gente não sabe ao certo como classificar. É bom? É canastrão? Talvez porque boa parte, senão a maioria, de seus filmes, aqueles que passam exaustivamente na TV, vão de péssimos a sofríveis. Mas, sob o comando de Schrader (que roteirizou Taxi Driver e Touro Indomável, pérolas cinematográficas de Martin Scorsese) e com o texto do roteirista Matthew Wilder, baseado no livro de Edward Bunker, Cage resgata o ator que dorme dentro de si.

Cães-Selvagens-cenaTroy, Diesel (Christopher Matthew Cook) e Mad Dog (Willem Dafoe), são ex-presidiários que, de volta à sociedade dita civilizada, não podem, não conseguem ou não querem seguir o fluxo. Escoram-se na crença de que, entrando uma vez na prisão, o sujeito provavelmente a ela voltará, ou seja, considerar a possibilidade de não cometer mais crimes é uma opção que passa longe.

Se Troy é refinado e tem razoável capital cultural, Diesel é o que chamamos de curto e grosso. Já Mad Dog vive num universo paralelo, caótico e surreal.

Acreditando ou fingindo acreditar no crime perfeito, o trio embarca numa ação aparentemente fácil – sequestrar um bebê – que poderá lhes render a aposentadoria, desfrutando as praias do Havaí. Em seu imaginário, é para lá que vão os criminosos bem sucedidos. Desta vez não há referência ao Brasil como paraíso da bandidagem em fuga, como em tantos filmes. Os três, provavelmente, não têm ideia de onde fica a Terra Brasilis.

Schrader compõe uma narrativa por vezes frenética, de cores e sons que se fundem como numa alucinação – estado frequente de Mad Dog, sempre chapado –, num ambiente de humor negro e cheio de sarcasmo. Em contraste, outras sequências dispensam as cores e a fotografia assume um tom mais elegante, dramático.

Para além da sangueira, Cães Selvagens é também sobre o armamento da sociedade civil, em nome de uma suposta segurança. É sobre o sistema e os desajustados que produz ou ajuda a produzir, especialmente na lógica do “vigiar e punir” (com licença, Foucault). Longe de ter um discurso sociológico ou antropológico, mas que não deixa de ser uma reflexão sobre este mundinho cada vez mais insano habitado pelo homo sapiens, onde, para “salvar” pessoas atingidas por bombas, jogam-se mais bombas. Em nome da justiça e da democracia. A matilha é bem maior do que se supõe.

 CÃES SELVAGENS (Dog eat dog)

EUA, 2016, 93 minutos

Direção: Paul Schrader

Roteiro: Matthew Wilder (baseado no romance de Edward Bunker)

Elenco: Nicolas Cage / Willem Dafoe / Christopher Matthew Cook / Louisa Krause

16 anos: drogas, conteúdo sexual, violência extrema

Lançamento: 06/04/2017

Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=lIvmo99NTww

Distribuição: https://imagemfilmes.com.br/filmes/164643/caes-selvagens

Mais info: http://www.imdb.com/title/tt4054654/

Estreia da semana: SILÊNCIO (Silence)

Silêncio-2

Um cineasta com a filmografia de Martin Scorsese pode se permitir realizar um filme como Silêncio. Não se trata de ser bom ou ruim, é uma jornada que, acredito, o velho Marty se comprometeu a percorrer, como os personagens, desde que leu o livro de Shûsaku Endô , 25 anos antes de conseguir levá-lo às telas. Fé e religião, o poder divino e sua interferência na vida humana não são novidades na obra de Scorsese.

No século XVII, dois jesuítas portugueses, Sebastião Rodrigues (Andrew Garfield) e Francisco Garupe (Adam Driver) tomam para si a missão de encontrar seu antigo mentor, Padre Ferreira (Liam Neeson), no distante Japão, um país que não tolera e pune cruelmente os que se confessam cristãos. Ferreira, supostamente, teria renegado a fé na Igreja Católica.

Os dois jovens padres viverão provações inimagináveis, físicas e espirituais. Sua fé será posta à prova e enfrentarão escolhas dolorosas em meio a um povo miserável, dominado pelo medo. A fé ardente que aquela gente miserável demonstra nos preceitos do Cristianismo agarra-se desesperadamente a objetos, ainda que toscos, como crucifixos, como se a fé estivesse mais contida nestes eles do que em sua própria alma, observa um deles numa de suas muitas reflexões.

Um filme sobre perseguição religiosa, menos por convicções espirituais do que pelo temor do que a nova crença poderia provocar nas mentes. Admitir a difusão do cristianismo no país, para os donos do poder, seria uma ameaça ao status quo. O opressor é hábil e usa estratégias que possam dividir a comunidade cristã.

Uma história sobre confrontar suas crenças, que me trouxe à lembrança um texto que trabalhei num curso para tradutores, tempos atrás, cujo título era “A perda de uma crença”. Seja por medo – como soltar a mão da saliência na rocha estando com um precipício aos pés – seja por vaidade e negativa em conceder mérito e razão a outro (vemos isso todo dia nas redes sociais), abandonar ou reavaliar uma crença é um processo extremamente difícil para muitas pessoas.

No caso de nossos personagens, não é exatamente a crença no Cristo que fica ameaçada, mas na sua extensão, no modo como se manifesta o poder divino e  o que a missão de difundir o Catolicismo pode exigir deles. Os padres clamam por uma luz que os oriente em suas decisões. Não há respostas fáceis, claras. Há o silêncio.

O ritmo do filme, ainda que com cenas muito fortes, é lento e a narrativa por vezes se arrasta, tornando-se mesmo enfadonha, repetitiva. A porção final do longa, com embates entre os jesuítas vividos por Neeson e Garfield e o frio inquisidor vivido por Issei Ogata, confere mais dinamismo ao filme, trazendo instigantes diálogos e levantando reflexões sobre religião, cultura e o que é a verdade.

A fotografia é de grande beleza, pintando na tela grande quadros em tons enevoados, de profunda dramaticidade.  O mar violento é um elemento constante, rugindo, abafando o silêncio, golpeando homens em fuga e homens sacrificados.

Os protagonistas perderam vários quilos antes de assumir os papéis. Estes papéis, aliás, originalmente seriam de Daniel Day-Lewis, Gael Garcia-Bernal e Benicio Del Toro (substituídos por Neeson, Garfield e Driver), que desistiram por conta dos sucessivos adiamentos das filmagens. Creio que teríamos atuações igualmente primorosas.

Para nós brasileiros, e não duvido que para os falantes de outras línguas também, há um incômodo que é ouvir o idioma Inglês se passando por Português. Concessões ao mercado, certamente. As falas em japonês são mantidas, bem como as em Latim.

A história de Endo já havia sido levada às telas numa produção japonesa de 1971. A première de Silêncio foi realizada no Vaticano e houve uma exibição em Roma para 400 padres jesuítas.

Afinal, um filme sobre forças que movem os homens desde sempre: crenças, senso de missão a cumprir, desejo de poder, fidelidade, compaixxão, medo e fé. Uma obra com a marca de qualidade do diretor de Taxi Driver (1976), Touro Indomável (1980), Gangues de Nova York (2003), mas que, desta vez, exige do espectador algumas concessões, como uma fruta nutritiva, mas difícil de descascar.

SILÊNCIO (Silence)

EUA/Taiwan/México, 2016, 2h41m

DIREÇÃO: Martin Scorsese

ROTEIRO: Jay Cocks , Martin Scorsese . Baseado no livro de Shûsaku Endô

Aventura/drama/História

Classificação: 16 anos

TONI ERDMANN, alemão longe de um 7×1

Fui para o cinema com a expectativa lá em cima, apesar das quase três horas de projeção não serem nada animadoras.  A crítica aplaude o filme, a sinopse desperta curiosidade. Realmente é uma história promissora, mas ficou aquém do esperado e o excesso contribuiu para isso. A filmografia da alemã Maren Ade como diretora (é também roteirista e produtora) não é muito extensa, teve um longa exibido aqui (Todos os Outros , de 2009). Talvez por isso a impressão, por vezes, de estar assistindo a um trabalho de amador, com muitas sobras que poderiam ser aparadas. A câmera com jeito de filme caseiro em algumas sequências pode até ser uma opção da realizadora, e não deficiência, mas torna ainda mais irregular o filme.

O excêntrico – e, convenhamos, não raro inconveniente – professor de música Winfried  (Peter  Simonischek)  é um sujeito de aparência não muito agradável, que adora zoar as pessoas. Inventa personagens, adota disfarces. Um cara gente boa, divertido, criativo. Sua filha Ines (Sandra Hüller) é o oposto: workaholic , durona, gelada como o inverno alemão, vive grudada no celular, dando e recebendo ordens do escritório de consultoria em Bucarest, onde trabalha. Está na Alemanha de passagem, mal conversa com o pai e nem vai visitar a avó. É uma máquina pronta para servir ao sistema.

O paizão então resolve fazer uma surpresa à filha e parte para a Romênia. Daí teremos algumas situações já exploradas em inúmeros filmes com temática família, como o conflito de interesses, de prioridades, trocas de palavras ríspidas, arrependimentos. Algumas cenas funcionam bem, com diálogos inteligentes, atuações convincentes. Há situações hilárias, algumas beirando o surreal, e a coisa vai indo razoavelmente bem. Mas o roteiro nem sempre evolui com fluidez, patina por vezes, anda em círculos. Há planos excessivamente longos sem que resultem em maior tensão ou emoção para o espectador.

Em alguns momentos as estripulias do despojado Winfried em sua incursão pelo mundo das corporações transnacionais, travestido de diplomata ou coach da filha, conseguem ser bem engraçadas.  Mas, após uma hora de projeção, o filme já começa a cansar, ficar repetitivo, a cadeira do cinema, desconfortável.  A proposta de colocar mundos opostos lado a lado, como o muro que se vê da janela do escritório, separando riqueza e pobreza, e de fazer uma crítica subliminar (nem tanto) ao modelo de produção globalizado, à coisificação do trabalhador, mão-de-obra facilmente descartável, é bastante interessante. Contudo, esta vertente do filme fica enfraquecida pelo excesso de situações desnecessárias na aventura do protagonista em Bucarest. Ótimo que o filme não seja panfletário (“trabalhadores do mundo, uni-vos!”), e nem é sua proposta ser um filme denúncia ou algo que o valha, mas com tantas firulas perde em vitalidade e emoção.

A princípio, uma situação surpreendente e engraçada, as cenas da “festa” de aniversário de Ines me pareceram mais esquetes de programa cômico (para adultos) e não funcionaram muito bem como momento de virada da executiva. Os que vão ao cinema em busca de mera diversão podem dar boas risadas (talvez entre um cochilo e outro), mas seria um desperdício reduzir o filme a isso, negligenciando o resto.

Um filme de altos e baixos, ao qual faria muito bem uma boa enxugada no roteiro, valorizando o que realmente a história tem de melhor, sem abrir mão da comicidade: o embate entre dois seres aparentemente tão diferentes, mas que podem guardar lá no fundinho laços que os aproximam. E quem afinal encarna um personagem, usa disfarces, perante a sociedade? Pai ou filha?

Enfim, é um daqueles filmes que valem a pena ver, mas fazem a gente sair do cinema pensando: “Como seria se fosse dirigido por…?”.

O longa levou alguns prêmios na Europa e foi indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, mas perdeu para o iraniano O Apartamento.

TONI ERDMANN (Toni Erdmann)

Alemanha/Áustria, 2016, 2h42m, comédia/drama

Direção/roteiro: Maren Ade

Classificação: 14 anos

Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=JGVi4f35V14

No IMDb: http://www.imdb.com/title/tt4048272/

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