O CIDADÃO ILUSTRE – Ensaio sobre a hipocrisia

O CIDADÃO ILUSTRE - NobelNo futebol, há equipes que dominam cada m2 do gramado. Como uma engrenagem, se armam de modo que passes, lançamentos, se completem, criando uma rede que aprisiona o adversário. Nas telas, há também filmes assim.

Não diria que O Cidadão Ilustre é uma obra maior do cinema argentino, mas, se no todo é um belo exemplar do cinema hermano, em cada detalhe, cada plano, cada sequência, cada fala, é certeiro. Como de costume na filmografia de nossos vizinhos, os personagens são bem construídos, o texto convincente. Sob a batuta de Gastón Duprat e Mariano Cohn (que dirigiram o ótimo O homem ao lado, 2009, também uma ácida versão de embate entre classes sociais), as atuações são na medida.

A jornada do Premio Nobel de Literatura Daniel Mantovani (Oscar Martínez) por Salas, cidade onde nasceu, cujos habitantes inspiram seus livros e na qual não bota os pés há quatro décadas, é uma jornada pela alma humana. Sua amabilidade e sua mesquinharia, onde a hipocrisia leva o troféu.

O CIDADÃO ILUSTRE BOMBEIROS

O CIDADÃO ILUSTRE - povo

Mantovani pega pesado. Todo trabalhado na arrogância, pode ir de simplesmente desagradável a curto e grosso. Mas também pode derreter o gelo que carrega no peito, de vez em quando. E sorrir, e dar autógrafos, e posar ao lado da rainha da beleza local.

A princípio curioso e até entusiasmado a percorrer as ruas de seu passado, Mantovani deixa Barcelona, onde vive com luxo e conforto, e segue para a terra natal. Lá, entre pedidos de ajuda e algumas demonstrações de desinteressado apreço e mesmo doçura, o premiado autor vai sendo envolvido numa trama, numa teia onde sorrisos podem esconder dentes afiados, prontos para morder.

O cidadao-ilustre - namorada

Para além do confronto entre bom e mau gosto, entre alta e baixa cultura, entre metrópole e cidadezinha, estão as práticas tão conhecidas de nós de troca de favores, bajulação, apego a fórmulas as quais sabe lá quem inventou. Apego à ordem estabelecida. Novos olhares, novos pontos de vista, podem ser perigosos em alguns rincões.

Não há moços bonzinhos por quem torcermos nesse filme (ou melhor, talvez por um discreto rapaz, que ganha estatura ao final do longa). Há gente. Gente que nasceu para brilhar e gente que nasceu para apagar as luzes alheias. Gente que tem medo e se cala, e gente que põe as mordaças. E um homem cuja alma atravessa vales de afeto, desprezo, saudade, impaciência, dobrando-se eventualmente a forças contrárias, mas determinado o bastante para se reerguer. E a arte segue seu rumo, guerreando consigo mesma, sem fazer concessões.

Mais um gol para nossos vizinhos.

O CIDADÃO ILUSTRE (El ciudadano ilustre)

Argentina/Espanha, 2016, 1h58m

Direção: Gastón Duprat, Mariano Cohn

Roteiro: Andrés Duprat

Elenco: Oscar Martínez, Dady Brieva, Andrea Frigerio

Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=0raD8Z_mKWU

IMDB: http://www.imdb.com/title/tt4562518/

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: