Estreia da semana: O RASTRO

O RASTRO cartaz

Alguns vão reclamar que O Rastro não se limitou a ser um filme de terror, tendo enveredado por questões sociais e políticas. Não creio que seria um problema se a proposta era exatamente o caminho inverso: partir de uma das (muitas) aberrações que vivenciamos ou assistimos pela TV diariamente – no caso, o caos nos hospitais públicos e a vida transformada em mercadoria barata – como argumento de um filme e usar o gênero terror/suspense para abordá-lo. Afinal, o que vivem médicos, pacientes, funcionários nos hospitais sucateados não é o horror?

Com apuro estético e atuações impecáveis, o longa de J.C.Feyer, contudo, derrapa nessa curva, entre terror e denúncia, oscilando e demonstrando falta de segurança na direção da trama. Em parte, o filme não desaponta quem vai ao cinema em busca de sustos e surpresas. Há suspiros, gemidos, sons abafados, suspense, sombras, cortinas e portas que sugerem mistérios, mas há também escolhas equivocadas, como o uso de sons estridentes, cortantes, totalmente dispensáveis. Esses recursos empobrecem a produção e, longe de impactar o espectador, irritam.

Por outro lado, temos ótimas atuações, com destaque para Leandra Leal (a esposa grávida do protagonista), cuja expressão corporal, gestual sutil, dá profundidade a seu personagem, para além do texto. O roteiro tem seus méritos e é capaz de prender a atenção do espectador, conduzindo a história do médico João (Rafael Cardoso) e sua busca pela verdade. Mas se fragmenta e toca superficialmente em algumas questões, perdendo vigor.

O-Rastro-terror

João é um médico cooptado pela máquina burocrática do Estado. Encarregado de coordenar a transferência dos pacientes de um hospital que será desativado para outras unidades, vê-se diante de um mistério: a menina Julia (Natalia Guedes) recém-internada, desaparece. João encara o desafio de localizá-la, o que o levará a descobertas assustadoras.

A câmera é elegante e eficiente, tanto nas cenas de suspense quanto nas demais sequências e busca ângulos inusitados. Há um uso interessante de espelhos que, contudo, peca pelo excesso.  A fotografia cria uma atmosfera de insalubridade, mortiça. Tudo é meio acinzentado. Os personagens são pálidos.

Há um cuidado com detalhes, como a aparição furtiva de um gato (ou teria sido um acaso, como o gato que Don Corleone afaga em O Poderoso Chefão e que não estava previsto na cena?), e as locações de um hospital real, quase em ruínas, conferem credibilidade à história.

O-Rastro-Montagner

A presença do ator Domingos Montagner – numa pequena participação, mas encarnando um personagem essencial na trama – ironicamente (e dolorosamente), de certa forma torna o filme mais perturbador. Merecia uma cena final mais contundente, mais elaborada, e não a cena quase pueril que o filme nos oferece.

O RASTRO (Brasil/EUA, 2016, 104 min)

Título em inglês: The trace we leave behind

Diretor: JC Feyer

Roteiro: André Pereira, Beatriz Manela

Elenco: Rafael Cardoso, Jonas Bloch, Leandra Leal, Claudia Abreu, Felipe Camargo, Alice Wegman, Domingos Montagner.

Suspense, 14 anos – violência, drogas lícitas, linguagem imprópria

Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=kTqzOe5nioU

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