HUMBERTO MAURO, O OLHO DO CINEMA EM CATAGUASES

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Cataguases-MG entrou no meu roteiro de andanças pelo país por conta de dois amores: por meu pai, nascido lá há quase 100 anos, e pelo cinema. Foi naquela cidade quente da Zona da Mata mineira que Humberto Mauro viveu sua intensa e produtiva paixão pela sétima arte, nas primeiras décadas do século XX.

Humberto Mauro (1897-1983) foi um gênio. Merecia todas as homenagens e poderia render fama e engordar os cofres da cidade mineira se os gestores públicos enxergassem o valor da história, do patrimônio, da cultura para o turismo. E o valor do turismo para a vida de uma cidade e seus habitantes.

O ator e roteirista Andre di Mauro, sobrinho-neto de Humberto, descreve num livro amoroso toda a trajetória do tio-avô e suas incríveis peripécias para conseguir realizar seus filmes. O diretor-roteirista-produtor, faz-tudo na verdade, Humberto Mauro botava toda a família e amigos para trabalhar nos seus filmes e não enxergava problemas, só criava soluções. Escrito em forma de roteiro (a ideia é levar esta incrível história para o cinema, claro!), o livro nos conduz pela rotina nada tediosa do tio-avô do autor.

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Cheguei a Cataguases esperando encontrar referência a Humberto Mauro por toda parte. Não é bem assim. Para começar, o Cine Edgard, na Praça Rui Barbosa, fechado e em péssimo estado. O prédio abriga um curso preparatório. Pesquisando, encontrei esta comovente crônica de Luiz Rufatto, ele também filho de Cataguases.

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O Centro Cultural Humberto Mauro fica praticamente escondido em meio à poluição visual da rua Coronel Vieira, no Centro. Por sorte passei por lá na sexta-feira à tarde, logo após chegar à cidade. Não teria conseguido visitá-lo no sábado, como pretendia. O espaço não abre nos fins de semana. O segurança, muito solícito, parecia estar feliz por receber uma visitante. Subiu comigo ao 2º andar e acendeu as luzes para que eu pudesse visitar a exposição.

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O Centro Cultural é bem maior do que aparenta sua tímida fachada e o hall de entrada. No andar superior está o acervo que é interessante. Não entendo nada de montagem de exposições, mas, como frequentadora desses espaços, arrisco dizer que o acervo poderia ser exposto de modo mais atraente e que permitisse melhor visualização e apreciação das obras.

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Noel Rosa autoriza uso de suas músicas em filme de Humberto Mauro

Uma pena que não haja uma cafeteria ou mesmo uma pequena bombonière ou lanchonete em funcionamento no local. Na verdade, não é um espaço muito convidativo. Na internet, são escassas e muitas vezes desatualizadas as informações sobre este espaço cultural e outros pontos de possível interesse na cidade.

Há um ótimo teatro que, creio, é sub-utilizado. É ocupado eventualmente. Soube que o maior fluxo de visitantes são alunos das escolas da cidade. As pessoas em geral não parecem saber muito sobre o cineasta que criou tantas obras fantásticas e inventou soluções mágicas para driblar a falta de recursos. Conversei com algumas pessoas que sequer sabem quem foi Humberto Mauro ou o que ele tem a ver com a cidade. A herança que nos deixou deveria ser mais difundida e valorizada.

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Entre as peças do acervo, está a câmera Pathé Baby citada no livro de André Di Mauro.

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“Zequinha e Humberto abrem um embrulho. Vê-se uma linda “Pathé-Baby”, filmadora em 9 ½ milímetros, lançada no comércio com o intuito de estimular o amadorismo e dar ao cinema um atrativo de recreação doméstica como a fotografia. Humberto – Já pensei até na estória do filme. O nome vai ser “Valadião, o cratera”. É simples, Valadião rapta a mocinha e se esconde com ela numa pedreira. O herói os encontra, vence o vilão e salva a mocinha”.

No livro, segue-se uma conversa sobre a escolha do elenco e a grande aventura que são as filmagens. Situações hilárias, dramáticas, a corrida contra o tempo enquanto o filme virgem vai se esgotando, tudo recriado a partir das pesquisas e da imaginação do autor.

A história de Humberto Mauro e sua devoção ao cinema ultrapassam as fronteiras da cidade mineira. Em 1926, no Rio de Janeiro, encontra-se com Adhemar Gonzaga, criador da revista Cinearte e dos estúdios Cinédia. Vai formar parceria depois com o antropólogo Edgar Roquete Pinto com quem realizará inúmeros documentários para o INCE-Instituto Nacional do Cinema Educativo. A ideia de aliar o cinema à educação veio de experiências bem sucedidas em outros países, como Inglaterra, França e EUA. Financiado por Vargas, o instituto serviu também aos interesses do governo, como em vários outros regimes (Itália, URSS) o que, em muitas obras, continua sendo praticado de forma subliminar, seja a serviço de governantes ou a serviço de empresas poderosas.

John Grierson, responsável pela organização do movimento do filme documentário, na Inglaterra, no final dos anos 1920, tinha um projeto de educação pública através do cinema, crendo que a câmera seria capaz de registrar fielmente a realidade e assim transmitir conhecimentos, mas sem abrir mão da criatividade, não ser apenas um cinejornal.

Seu último trabalho foi “A noiva da cidade”, um projeto antigo levado às telas pelo amigo Alex Viany, em 1978. O diretor faleceu cinco anos depois. Este filme inaugurou um cinema público em Belo Horizonte, em 2016 (veja matéria aqui).

Humberto Mauro enxergava além das aparências e percebeu desde cedo que o cinema tem um “olho” que revela o que nem sempre se vê. Sua frase “Cinema é cachoeira” é simples, bela e verdadeira.

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Como esta passagem transcrita por Andre Di Mauro, uma citação do tio-avô:

“Quando vejo um rio, não vou de cara em cima dele. Escondo-me, esperando a hora certa. Há certas coisas na natureza que se você não filma na hora certa, nunca mais filmará. O vento é plástico, bom para não parecer fotografia. Natureza a gente não deve filmar quando a gente quer, mas na hora que a natureza escolhe…”
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Rio Pomba
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Ponte sobre o Rio Pomba

Apesar de algumas frustrações, foi muito bom ter ido a Cataguases. Se voltar um dia, espero encontrar o nome de Humberto Mauro brilhando entre luzes, com todo o reconhecimento que este mineiro visionário merece.

Mais sobre Humberto Mauro:

Filmografia: http://www.ctav.gov.br/acervo/filmografia-humberto-mauro/

A velha a fiar: https://www.youtube.com/watch?v=T4pOO5P3cW8

Sobre cinema documentário:

Da-RIN, Silvio. Espelho Partido: tradição e transformação do documentário. Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2006.

RAMOS, Fernão P. Teoria contemporânea do cinema – Vol. II – Documentário e narratividade ficcional. São Paulo: Editora Senac, 2005

Foto anúncio Pathé Baby: http://www.pathefilm.uk/pathe/pathebabyad1.htm

Mais sobre minhas andanças em Cataguases aqui.

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