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Ken Loach andava mais terno, parecia ter abrandado um pouco a amargura que havia em Kes (1969), Terra e Liberdade (1995), Uma canção para Carla (1996). Em Meu nome é Joe (1998) já havia uma certa brandura que cresceu nos deliciosos À procura de Eric (2009) e A parte dos anjos (2012), sem deixar de ser fiel ao seu caráter de cineasta contestador do sistema, como em Pão e Rosas (2000). Algo como “hay que endurecerse sin perder la ternura jamás”.

Loach é um operário do cinema, sua filmografia é extensa. Não espere em seus filmes aquela fotografia deslumbrante, planos arrebatadores, montagem mirabolante. Espartano, como citado na matéria do jornal El País, é um adjetivo que lhe cai bem. Ele vai lhe contar uma história e você vai ficar totalmente envolvido por ela, graças à sua competência e sensibilidade e, em muitos de seus filmes, ao parceiro roteirista Paul Laverty (um sujeito formado em Filosofia e Direito). Some-se a isso um time de atores sempre afinadíssimo com seus papéis.

Em Eu, Daniel Blake (2016), Palma de Ouro em Cannes, Loach parece tentar expressar aquela ternura, mas, tal como o personagem título, denota a dificuldade em manter humor ou doçura num mundo cada vez mais desumano, lidando com situações kafkianas encravadas num aparelho burocrático. Há, sim, momentos para alguns sorrisos, para o futebol (sempre presente em seus filmes), para a esperança.

Daniel Blake (Dave Johns) é um sujeito trabalhador, mas tem de se afastar temporariamente de seu ofício de carpinteiro por questões de saúde. O mesmo sistema que atesta sua condição física se nega a lhe dar o benefício devido. Não pode trabalhar, mas precisa procurar emprego para receber o auxílio-desemprego, outra alternativa para sobreviver. A peregrinação por repartições onde trabalham pessoas robotizadas (e como as conhecemos!) o empurra para uma ciranda surreal onde mais importante do que o indivíduo são os formulários a serem preenchidos e a habilidade em acessar a internet.

Em seu caminho, Daniel Blake esbarra com Katie (Hayley Squires) e seus dois filhos, uma jovem mãe solteira que tenta equilibrar sua vida, corrigir a rota, alcançar alguma estabilidade. A relação entre os dois é assentada na solidariedade, na compreensão, sem julgamentos, cobranças ou interesses mesquinhos. Duas histórias de vida muito diferentes, mas que se chocam contra o mesmo muro de concreto que os impede de seguir adiante com dignidade.

Hannah Arendt falou na banalidade do mal, ao escrever sobre o julgamento do nazista Adolf Eichmann (e foi duramente criticada por isso, totalmente incompreendida, episódio magistralmente retratado no filme de Margarethe von Trotta). De certa forma, guardadas as proporções, há uma “banalidade do mal” naqueles burocratas que, não por sadismo, mas por insensibilidade, incapacidade de enxergar além do manual de adestramento que os guia, tornam a vida de homens simples e cidadãos corretos num calvário.

Saí do cinema segurando as lágrimas – não, Ken Loach não apela para o sentimentalismo – e não sei se era de tristeza, raiva, desesperança. Talvez pena de Daniel Blake, de Katie, de Loach, de mim, de nós. Sim, a burocracia capitalista também mata.

EU, DANIEL BLAKE (I, Daniel Blake)

(Reino Unido/França/Bélgica, 2016, 100 min).

Direção: Ken Loach

Roteiro: Paul Laverty

Elenco: Dave Johns, Hayley Squires, Sharon Percy

Classificação: 12 anos

Valem a pena a crítica de André Miranda, em O Globo e a entrevista de Ken Loach ao jornal El País.

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